RAFAEL MARTINELLI

Norte Via Sul: bem-vindos ao baile de alianças — e o ‘encantamento’ de Cláudio Ávila — que reuniu opostos da política em Gravataí

O baile político que Cláudio Ávila (Avante) deu na noite desta sexta-feira (21) é (quase) indescritível. Resta o “quase” porque a política não permite nada definitivo. “Como tu vai descrever isso, Martinelli?”, perguntavam-me, quando cruzavam por mim entre as mais de mil pessoas reunidas no CTG Carreteiros da Saudade, ou quando eu saía para fumar no frio da Bonsucesso. Eram sarcásticos observadores de diferentes lados da ferradura ideológica, que acompanhavam a prestação de contas de seis anos de mandato do vereador de Gravataí e a festa política por ele organizada para apresentar seus candidatos às eleições de 2026.

A resposta que me veio à mente foi lembrar de uma antiga linha de ônibus de décadas atrás — que sempre considerei um exotismo made in Gravataí —: a linha ‘Norte Via Sul’. O que é um daqueles que chamo “Dos Grandes Lances dos Piores Momentos”, considerando que o anfitrião é um crítico até inconsequente da empresa Sogil, e essa talvez seja a melhor alegoria para reportar o ato político conduzido por aquele que o comunicador Chico Pereira já descreveu em capítulo de livro como ‘O Encantador de Serpentes’.

Havia personagens na noite com muito mais votos que Ávila. E voto é moeda na política. E há, para as análises líquidas e instagramáveis sobre as campanhas eleitorais do nosso Zeitgeist — o espírito do tempo —, hierarquias que parecem imutáveis. E a partir delas a cobertura jornalística óbvia deveria tratar quem é notícia em Porto Alegre como prioridade na aldeia. Mas é o Gravataí que o Guaíba represa. Neste fluxo, reputo o anfitrião merece ser o foco deste artigo, até por rigor aos fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos.

A obra política produzida por Ávila — recheada de relações com prefeitos, candidatos a deputado, postulantes ao Palácio Piratini e a Brasília, estreitamentos de inimizades e inimizades sem qualquer estreitamento, e eteceteras — foi a verdadeira estrela da noite. Se o patrão do CTG, o simpaticíssimo Neri Facin, demonstrava preocupação com a qualidade do jantar (apressado de última hora para dar conta de um público que superou todas as expectativas), o cardápio político servido foi um buffet variado em tempos de política à la carte.

Não há como reportar esse cenário sem seguir a cronologia dos fatos. Citando, claro, quem apoia quem. E o momento em que cada um desembarcava do ‘Norte Via Sul’.

A noite teve início com Ávila realizando a prestação de contas de seu mandato, exatamente como anunciava o convite oficial. Enquanto o chefe de gabinete, Henrique Santos, conduzia as apresentações e a formalidade do protocolo, chegavam os candidatos a deputado estadual e federal apoiados pelo vereador: Dimas Costa (PSD) e Teté Caçapava (Avante). Também o prefeito Luiz Zaffalon, o Zaffa (PSD), acompanhado do presidente da Câmara Municipal de Gravataí, Dilamar Soares, o Dila (Podemos).

No palco, Ávila rememorou sua história de superação, conectando sua trajetória pessoal diretamente com o bairro em que o evento era realizado. Ele recordou que foi criado na creche Guilherme de Almeida, mantida pela Abemgra (Associação do Bem-Estar da Criança e do Adolescente de Gravataí): “Até os 13 anos, foi minha mãe e meu pai”. As 3 mil vagas abertas em escolas de educação infantil durante a gestão do prefeito Zaffa — frente a uma fila represada de 7 mil crianças quando Ávila decidiu concorrer a vereador em 2020 — foram apontadas como um dos pilares centrais para a reaproximação entre ambos.

Testemunho aqui que ambos sequer se permitiam frequentar os mesmos ambientes no passado. A reeleição de Zaffa em 2024, com Ávila integrado à coligação, voltou a aproximá-los a certa distância, até que o decorrer do tempo construiu o cenário atual. Ávila afirmou categoricamente que Zaffa é um prefeito que “olha para quem mais precisa”. Zaffa, por sua vez, no palco, retribuiu declarando que “admira” o trabalho que Ávila realiza “pelos mais pobres” e garantiu que vai ajudá-lo a “fazer mais”.

‘Sincericida’, Zaffa não pediu licença para apresentar publicamente seus próprios candidatos: defendeu Dimas Costa para deputado estadual (“Desafio apontarem alguém que fez mais em um ano e meio de mandato do que ele”) e indicou Juvir Costella (MDB), ex-secretário estadual de Infraestrutura, para deputado federal (“Nem na enchente parou a obra do complexo viário da ERS-118. E concluiu”).

Voltaremos a Dimas em seguida, pois ele também é o candidato oficial de Ávila. Antes disso, Dila Soares foi chamado ao microfone para falar em nome dos vereadores presentes. O hoje presidente do Poder Legislativo municipal já foi inimigo, amigo e novamente inimigo de Ávila, até que convergiram no grupo político que elegeu Dila à presidência da Casa e os mantém alinhados atualmente.

“Nem tão devagar que pareça afronta, nem tão depressa que pareça medo.” A célebre instrução dada por Pinheiro Machado, em 1915, ao seu cocheiro — ao orientar como conduzir a carruagem diante da multidão enfurecida na porta do Palácio do Conde dos Arcos por ter imposto Hermes da Fonseca como Senador pelo RS — serviu de pano de fundo teórico. Dila explicou sua presença resgatando a palavra-chave proferida por Zaffa ao tomar posse no segundo mandato: “civilidade”. Afirmou que, ao assumir o comando da Câmara, busca tratar todos os parlamentares sem distinção, “em nome da harmonia do Legislativo, mesmo que os candidatos não sejam os mesmos”. Como historiador, Dila sabe muito bem que quem figura no quadro faz parte da História — tanto nas telas quanto nos palanques.

Foi, também, um dos raros momentos, e cada vez menos raros, já que orbitam hoje o grupo de Zaffa, em que Dila estava próximo ao irmão, Dimas, para alegria dos tantos amigos em comum.

A rota da linha ‘Norte via Sul’, ainda no centro de seu itinerário, levou Dimas Costa ao palco. Ávila definiu Dimas como o deputado estadual que mais atuou e destinou recursos para Gravataí, reativando uma parceria política de um passado recente que os fez os líderes da oposição em Gravataí, nos governos Marco Alba (MDB). Dimas retribuiu os elogios, classificando Ávila como um vereador atuante “para os que mais precisam”, e elencou suas próprias realizações como ‘embaixador’ do governador Eduardo Leite (PSD) no município — o qual definiu como o “governador que mais investiu na história de Gravataí”.

Ao lado de Dimas estava Teté Caçapava, filho da prefeita de Cachoeirinha, Jussara Caçapava, personagem que logo adiante também tomaria seu assento reservado na viagem do ‘Norte Via Sul’.

Até esta parada — onde desembarcaram do palco rumo a “outros compromissos eleitorais” — todos apoiam Gabriel Souza (MDB) ao Palácio Piratini, exceto Ávila, que logo vai revelar sua preferência, e Dila, que tem Luciano Zucco (PL) como candidato a governador.

A “amiga” chega ao baile apimentado

O itinerário do evento deu uma guinada do ‘extremo-centrismo’ para a esquerda quando Ávila convocou as mulheres presentes ao palco para aguardarem a chegada de uma “amiga”, sua candidata a governadora. Entre as presentes estava a vereadora Vitalina Gonçalves (PT), que faz pouco chegou a sofrer ameaça de cassação de mandato em uma articulação política que tinha o próprio Ávila entre os conspiradores.

Vitalina foi acolhida e recepcionada pela companheira de Ávila, Natália Fonseca, que discursou na condição de vice-presidente estadual do Avante. Natália revelou publicamente que fez o marido “se retratar e pedir desculpas publicamente” à vereadora petista, a quem destacou como representante da classe dos professores — a exemplo de sua própria mãe, que lhe ensinou “os melhores valores”. Com rosas distribuídas no palco, estava pronto o cenário para a entrada da candidata ao Governo do Estado, Juliana Brizola (PDT), acompanhada do candidato a vice-governador, Edegar Pretto (PT).

Também integraram o dispositivo políticos como o ex-prefeito pelo PT Sérgio Stasinski, o presidente estadual do PV, Márcio Souza (ex-vereador de Gravataí) e o presidente municipal, Calebe Guimarães, além do decano pedetista e também ex-vereador gravataiense José Amaro Hilgert. Thiago De Leon (PDT), candidato a deputado estadual pela coligação de Lula, não foi.

Em sua fala, Juliana Brizola agradeceu a Ávila pela articulação que garantiu o Avante em sua coligação. Mesmo dividido entre outras candidaturas, o partido assegura 21 segundos de TV na conta. São ex-colegas de PDT, onde a chapa Daniel Bordignon-Ávila venceu a eleição para Prefeitura em 2016, mas não assumir pela suspensão dos direitos políticos do ex-prefeito,

Ao ser questionada sobre o que seu avô, Leonel Brizola, diria sobre o atual momento político, Juliana pontuou que não pretendia adivinhar, mas cravou: “Sei exatamente de qual lado ele estaria”. Ela recordou os laços afetivos e históricos de sua família com o município: lembrou que os Brizola mantinham propriedade em Gravataí, que aprendeu a nadar nas águas do rio Gravataí e que a cidade serviu de esconderijo e rota de fuga para seu avô durante a ditadura. Encerrou seu discurso recitando versos do poema “O Voto e o Pão”, do ex-governador Alceu Collares (PDT): “O voto é tua única arma, põe o teu voto na mão”.

A linha circular prosseguiu, após a despedida da comitiva, com a prefeita de Cachoeirinha, Jussara Caçapava, proferindo o pronunciamento que um vetera da política, ao meu lado, resumiu com precisão: “Foi o discurso mais certeiro da noite”. Com seu estilo eminentemente popular, Jussara afirmou ser “uma mulher do povo” e relatou sofrer preconceitos por essa razão. Apresentou seus candidatos de forma direta a um público majoritariamente popular, para o qual a sigla partidária de alguém é detalhe antes do galeto.

Jussara — que também apóia Gabriel Souza — teceu elogios a Ávila (que atua como seu assessor especial na Prefeitura de Cachoeirinha), confirmou Dimas Costa como seu candidato a deputado estadual e seu filho, Teté Caçapava, como candidato a deputado federal. Em seguida, chamando ao palco o recém-chegado Paulo Pimenta (PT), anunciou-o entusiasticamente “meu candidato ao Senado”.

“Eu sou do povo e não quero saber: apoio quem faz pelo povo mais pobre”, declarou a prefeita, como que em um (mesmo inconsciente) desafio às críticas previsíveis geradas pelos algoritmos das redes antissociais frente à polarização entre lulismo e bolsonarismo — contradição ainda mais evidente considerando que seu vice-prefeito é o bolsonarista-raiz Mano do Parque (PL).

Ao lado de Jussara e Teté no entusiasmo por Pimenta, acompanhava a movimentação o vereador licenciado de Gravataí, Fernando Deadpool (Avante), que trazia no celular um adesivo com a “pimentinha”, símbolo da campanha do petista.

Em sua fala, Pimenta recordou o lançamento da pré-campanha de Lula no domingo anterior, citando que, nos tempos do sindicalismo, o grande sonho da classe trabalhadora era ter a casa própria, garantir educação aos filhos, acesso à saúde, aposentadoria “e um Fusca”. Conectou a realização dessas conquistas aos governos petistas, afirmando que eles permitiram ao povo sonhar mais alto.

Pimenta apresentou-se como continuidade dessa visão que transcende divergências partidárias: “Como ministro da Reconstrução do RS durante a enchente, nunca perguntei o partido de ninguém. Trabalhamos em unidade para devolver o bem-estar ao povo. Aqui temos diferentes caminhadas, mas um único objetivo: mudar para melhor a vida das pessoas”, ressaltou, dizendo ser um seguidor do legado do senador Paulo Paim.


A valsa da ferradura

No encerramento das manifestações, Cláudio Ávila justificou o esforço de reunir em um mesmo palanque lideranças de lados opostos da ferradura ideológica: segundo ele, tratava-se de apresentar à sua base comunitária aqueles que “realmente ajudam os mais pobres”.

Ávila citou este colunista, recordando a ocasião em que, Lula presidiário, Ávila era o único vereador na Câmara de Gravataí a sustentar que havia sido condenado sem provas. Na época, mesmo sem ser filiado ao PT — e apesar de ter sido, no passado, autor do pedido de impeachment que resultou na cassação da ex-prefeita petista Rita Sanco —, sua postura me levou a chamá-lo de “o vereador do Lula”. Na noite desta sexta, ele assumiu o voto em Lula, mesmo seu Avante tenha a candidatura presidencial do best-seller Augusto Cury.

Para ilustrar sua posição, Ávila contou uma passagem de sua época de acadêmico do curso de Direito na PUC. Recordou-se de um colega de turma, negro, gari e que estava na universidade pelo ProUni: “Um presidente que dá a um negro e gari a oportunidade de cursar Direito na PUC sempre terá o meu voto”.

Ao fim, o que Cláudio Ávila produziu nesta noite foi uma obra de arte da política de Gravataí. Uns acharão bonito, outros feio, outros ‘nem-nem’. O quadro, para ganhar contornos mais sofisticados, bem poderia ser batizado de ‘Norte Via Sul — Realpolitik’. O nome real deveria ser “Política”, algo óbvio (e necessário), apesar do ódio de tantos. 

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