RAFAEL MARTINELLI

O aeroporto será salvo sem alagar Cachoeirinha? Novo estudo diz que sim — os sete milímetros e a ‘bacia das almas’

Projeto de dique emergencial para o entorno do aeroporto não prejudica Cachoeirinha e região, conforme estudo da prefeitura de Porto Alegre, divulgado pela RBS

O Grupo RBS publicou mais uma reportagem trazendo garantias de que as obras emergenciais para proteger o entorno do Aeroporto Salgado Filho não provocarão impactos relevantes em Cachoeirinha e na Bacia do Rio Gravataí.

A informação, publicada em GZH pela jornalista Gabriela Plentz, cita um estudo encomendado pela prefeitura de Porto Alegre segundo o qual a obra elevaria em, no máximo, sete milímetros o nível na Bacia do Gravataí.

O número é pequeno, convenhamos. O presidente do Dmae, Vicente Perrone, usou uma imagem didática para traduzir a conclusão técnica: seria como colocar “pouquíssimos pingos d’água” em uma bacia gigantesca de 2 mil quilômetros quadrados. Segundo ele, o impacto seria praticamente zero.

A simulação ainda indicou elevação máxima de 5,5 milímetros na região onde deverá ser construído o dique do Arroio Feijó.

É uma notícia importante para Cachoeirinha, Gravataí e toda a região metropolitana. E merece registro: as fontes técnicas apresentadas pelo Dmae e repercutidas pelo Grupo RBS apontam que o dique emergencial do Salgado Filho não deve agravar de forma relevante as enchentes nos municípios vizinhos.

Reputo não significa que o debate anterior tenha sido inútil. Mesmo tenha eu entrado no ‘Modo Greta’ em O aeroporto será salvo. Mas qual é a medida do “impacto não relevante” para Cachoeirinha e região, MP? e O aeroporto será salvo. Mas quem salvará Cachoeirinha? A ‘bacia das almas’.

Quando escrevi que Cachoeirinha corria o risco de virar uma ‘bacia das almas’ metropolitana, o objetivo não era decretar um desastre futuro. Era levantar uma pergunta que milhares de moradores passaram a fazer depois da enchente de 2024: se Porto Alegre e Canoas reforçam suas barreiras, para onde a água irá?

Essa dúvida não nasceu do nada. Nasceu do trauma. Nasceu da experiência concreta de uma cidade que ficou ilhada, de moradores que viram a água subir rapidamente e de uma população que aprendeu, da forma mais dura possível, que intervenções hidráulicas em um ponto da bacia podem afetar outros pontos.

O Ministério Público levou o tema a sério. A promotora Roberta Morillos Teixeira determinou a apresentação de estudos sobre os impactos regionais. O promotor Felipe Teixeira Neto afirmou que os estudos disponíveis indicavam ausência de impacto “relevante” nos municípios lindeiros.

Políticos de Cachoeirinha também se mobilizaram. De diferentes lados da ferradura ideológica: do primeiro, o vereador Leo da Costa (PT), àquele com mais poder executivo, o vice-prefeito Mano do Parque (PL). Houve cobranças, questionamentos e busca por transparência.

A sociedade, em maior ou menor grau, participou do debate. Um exemplo é o geólogo Sérgio Cardoso, decano do ambientalismo gaúcho. O ex-presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Gravataí e que, desde esta quinta-feira, representa a estréia da Associação de Preservação da Natureza do Vale do Gravataí (APN-VG) — uma das mais longevas entidades do setor — no Conselho Estadual do Meio Ambiente do RS, sempre simplifica: cuidemos das “esponjas naturais”.

Quem é da região sabe que se Cardoso subscreve algum alerta, ou mesmo uma dúvida, é com espírito de estado, não com interesses políticos, ideológicos ou econômicos. Testemunho: talvez é um dos poucos influentes no setor que continuam pobres apesar das sempre milionárias polêmicas ambientais.

Agora surgem novos dados técnicos. E aqui entra um ponto que venho defendendo também no debate sobre dragagem e desassoreamento: se houver estudo científico consistente, ele precisa ser considerado, goste-se ou não do resultado.

No meu artigo sobre o “populismo da enchente”, O populismo da enchente: por que o clamor para “desassorear tudo” desafia a ciência no RS — alerta a um gravataiense, critiquei justamente a tentação de substituir hidrologia por slogan. Rio não é cano. Água não obedece discurso político. Intervenções precisam ser avaliadas por modelagem, dados e análise técnica, não por medo ou desejo.

O mesmo princípio vale aqui. Se a modelagem hidrológica indica elevação máxima de poucos milímetros numa bacia de 2 mil km², isso precisa entrar na conta do debate público. Não dá para ignorar apenas porque o resultado contraria um temor legítimo.

Mas também não dá para exigir confiança cega. A enchente de 2024 destruiu parte da confiança pública em promessas técnicas e políticas. É natural que moradores que perderam casas, carros e memórias desconfiem de qualquer obra que altere o caminho da água. Transparência, acesso aos estudos e monitoramento contínuo serão fundamentais para reduzir essa desconfiança.

Há ainda uma diferença importante entre afirmar que o impacto é pequeno e afirmar que a discussão está encerrada. O próprio Dmae informa que o estudo foi um dos primeiros passos para compreender os efeitos das obras definitivas de proteção de cheias na bacia do Gravataí, e o documento foi compartilhado com Estado e Ministério Público. Ou seja: o acompanhamento institucional continua.

Ao fim, talvez a melhor conclusão, neste momento, seja reconhecer duas verdades simultâneas.

A primeira: pelos dados apresentados pelo Dmae e repercutidos pelo Grupo RBS, não há evidência de que o dique emergencial do Salgado Filho vá transformar Cachoeirinha na ‘bacia das almas’ temida por muitos moradores. O impacto projetado é mínimo.

A segunda: depois da maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul, a sociedade aprendeu a desconfiar. E essa desconfiança não será vencida apenas com frases de efeito ou projeções de investimentos milionários.

Será vencida — se for — com estudos transparentes, monitoramento real e resultados concretos ao longo do tempo.

Como escreveu o moçambicano José Luandino Vieira: “A verdade e a mentira não podem ser separadas enquanto não soubermos tudo.”

Por enquanto, sabemos mais do que sabíamos há algumas semanas. E o que sabemos hoje aponta para um cenário bem menos alarmante do que o imaginado inicialmente. Mas ainda não sabemos tudo.

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