É impopular, é o chato, eu sei. Mas vamos lá. O segredo de aborrecer é dizer tudo. O candidato a deputado estadual Thiago De Leon (PDT) acaba de entregar mais uma superprodução para o Grande Tribunal das Redes (Anti) Sociais.
Em vídeo publicado, o ex-vereador de Gravataí aparece ao lado de um Porsche. Indagado sobre “como se faz para ter um destes”, De Leon responde que “basta” receber R$ 25 mil líquidos de subsídio parlamentar e ainda contar com o custeio de verbas de gabinete e diárias. A partir daí, engata a sua principal bandeira de propaganda eleitoral: promete doar metade do salário se eleito para a Assembleia Legislativa — o que totalizaria cerca de R$ 600 mil ao longo do mandato —, valor que credita simbolicamente ao preço do carro de luxo (que, faz questão de ressaltar, não é seu). Como vereador, contabilizou quase R$ 200 mil em doações. Já como secretário-adjunto do governo Eduardo Leite (PSD), a doação de salário convenientemente não ocorreu.
Fatos, os chatos que atrapalham argumentos, mostram que a conta do “basta” de De Leon é uma meia verdade. E meias verdades guardam a incômoda propriedade de ter sempre um lado muito mais próximo da mentira.
Façamos a matemática elementar: os R$ 25 mil líquidos recebidos por um deputado estadual só comprariam um Porsche em dois anos caso o parlamentar possuísse outra fonte de renda — seja ela lícita ou, o que é infinitamente pior para a saúde da democracia, ilícita. Isso porque, pela equação apresentada no vídeo de propaganda, o político simplesmente não poderia gastar um único real do seu subsídio para comer, morar, vestir ou manter sua família durante todo esse período. A narrativa vende a ilusão de que o salário político é um luxo descartável, um absurdo privilégio.
Minha crítica não guarda relação direta com aquelas feitas por políticos em vídeos publicados nos últimos dias sobre postagens em que De Leon escolhe a Gravataí que quer mostrar. Não se trata da acusação feita pelo líder do governo Luiz Zaffalon (PSD), vereador Alex Peixe (PSDB), de que De Leon teria cometido fake news ao culpar a prefeitura pela paralisação do transporte escolar (quando, explicou, o município havia repassado a verba, mas a empresa contratada atrasara os salários dos funcionários). Tampouco se trata das críticas do vereador Cláudio Ávila (Avante), que desmentiu que o pobre “não pode mais morrer” na cidade e ligou a “perna curta” da mentira com a “calça curta”, as cigarretes que De Leon costuma vestir.
Minha crítica é estrutural e conceitual. Acompanha a trajetória do ex-vereador desde 2021, quando iniciou seu primeiro mandato. Insisti na mesma tese quando ele prometeu doações ao concorrer a deputado em 2022, quando repetiu o gesto na chapa como vice de Marco Alba (MDB) em 2024 — na qual amargaram o segundo lugar com 42.445 votos frente aos 64.125 de Zaffa —, e inclusive quando anunciou doações do subsídio a flagelados das enchentes e do ciclone em 2023.
Como escrevi no Seguinte: à época do seu primeiro anúncio e reafirmo agora: Thiago De Leon doar parte do salário pode ser excelente para as escolas contempladas e para as famílias ajudadas. Mas é francamente ruim para a política.
Quem nunca recebeu em suas redes antissociais uma petição vociferando que políticos deveriam receber um salário mínimo ou trabalhar de graça? A demagogia do “político sem salário” alimenta o monstro do antipoliticismo.
Reputo não ser papel de vereador ou de deputado fazer filantropia com seus vencimentos. Fiscalizar, legislar e formular políticas públicas é a obrigação constitucional. E registro, como sempre fiz de forma honesta, que De Leon não foi um mau vereador. O problema é a mensagem subliminar da ação.
Ao eliminar simbolicamente a remuneração dos representantes ou criar uma pressão eleitoral para que doem seus vencimentos, a sociedade afasta da vida pública justamente quem não tem condições financeiras próprias para se manter. Uma política exclusiva das elites é o pesadelo de qualquer democracia saudável. O resultado prático dessa lógica é simples: apenas os ricos, os herdeiros, os de bom casamento, ou os profissionais liberais de alta renda conseguiriam exercer mandatos.
Thiago De Leon pode se dar ao luxo de doar metade do seu salário e continuar vivendo com todo o conforto. Possui patrimônio e reside na Paragem Verdes Campos, um dos condomínios mais nobres de Gravataí. Mas pergunto: é justo ou razoável exigir o mesmo sacrifício de uma liderança comunitária que emerge da periferia do Rincão da Madalena? Evidentemente que não. É um erro estrutural que a suposta boa ação, ainda mais usada como peça de campanha, induz no eleitor.
Já fiz a mesma crítica ao vice-prefeito, Dr. Levi Melo (Podemos), por doar parte do salário para o Banco de Alimentos. O médico, um dos mais bem-sucedidos do RS, vizinho de De Leon, ao menos não está fazendo da ação uma peça de campanha.
A perigosa tentação e o ‘Zeitgeist’ do populismo
Fato é que há um perigo ainda mais profundo, e é a ele que o termo perigosa se refere na manchete deste artigo. A demagogia do “político bondoso” que abre mão da sua remuneração abre as portas para a corrupção sistêmica.
Pior do que o elitismo é o incentivo ao desvio: a cultura do desapego financeiro aparente pode fazer com que o político pague de “bonzinho” doando seus vencimentos na vitrine das redes sociais e, nos bastidores da penumbra, passe a morder o salário de seus assessores na prática criminosa da “rachadinha” — crime de enriquecimento ilícito e dano ao erário, conforme o STF. Ou, pior ainda, faz com que o parlamentar passe a depender da “ajuda” e do financiamento clandestino de grandes grupos econômicos e poderosos, que mais tarde virão cobrar a fatura na forma de votos em projetos de interesse privado.
É uma análise que faço em tese. Não tenho nenhuma informação de que De Leon esteja envolvido em qualquer prática ilegal desse tipo. A crítica é rigorosamente institucional e doutrinária, não um ataque pessoal ao indivíduo. Investigados por rachadinhas, ou ladrões de diárias, por exemplo, até hoje foram outros.
Ao fim, De Leon colabora com o Zeitgeist — o espírito do nosso tempo — que rebaixa a política ao nível da presunção permanente de culpa. A ideia de que “todo político é ladrão e por isso não deve ganhar salário” é o atalho perfeito para transformar legislativos em clubes privados de milionários ou em balcões de negócios ilegais. Ou, então, em hub de influencers irresponsáveis que faturam ao monetizar algoritmos.
De Leon, que em sua trajetória recente transitou da simpatia pelo PSOL para o PDT, foi vice de Marco Alba, virou secretário-adjunto do governo Eduardo Leite, mas nunca dá unfollow no eleitorado instagramável, em uma espécie de “Google AdSense” do voto, precisa decidir se quer ser um formulador de futuro ou apenas um reprodutor de algoritmos populistas. Na busca pelo aplauso fácil do feed, o risco é entregar um Porsche de ilusões e depois, em sua maturidade política, ser atropelado por uma política empobrecida e corruptível.
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