RAFAEL MARTINELLI

O que Marco Alba pede para o eleitor é o óbvio, ou deveria

É impecável a fala de Marco Alba (MDB) em uma de suas propagandas de campanha para deputado estadual. Poderia ser reproduzida por qualquer candidatura que tenha o mínimo de responsabilidade com o interesse público. Mas, e o segredo de aborrecer é dizer tudo, talvez o óbvio esteja deslocado no tal Zeitgeist, o espírito do nosso tempo que sempre, por assombro, evoco em minhas análises políticas. A realidade que se impõe parece mostrar que, na ditadura do algoritmo nas redes antissociais, qualquer tempo consumido pelo eleitor na timeline se reduz ao discurso de ode ou ódio, o fã ou hater, a bolha, o interesse individual, o pensamento mágico. Neste tempo de pós-verdade, conseguiu-se inventar até o populismo que não ajuda o povo; entrega apenas soluções simples e erradas para problemas difíceis.

Fato é que boa parte do eleitor — e não falo dos doidinhos que acreditam que o presidente é um clone — nem lembra em quem votou. E faz do voto apenas um exercício emocional, arrastando-se por relações tóxicas de amores, ódios e pretendentes próximos à psicopatia. Os algoritmos que regem as plataformas digitais, amplamente analisados por especialistas em tecnologia e regulação eleitoral, distorcem deliberadamente o debate público, priorizando o engajamento raivoso e a polarização em detrimento da ‘ideologia dos números’.

Marco sugere o que deveria ser regra. Afinal, como ele bem aponta ao lembrar que “faltam 30 dias para as eleições de outubro”, o momento exige que o eleitor saiba “prestar atenção no que realmente importa; não na conversa fácil, mas naquilo que cria as condições para que uma promessa possa virar realidade”. Para a promessa não restar dívida, é preciso ir além da superfície e perguntar um simples “como”. Como o próprio Marco exemplifica ao tratar da saúde — “é fácil dizer que vão diminuir a fila por exames e cirurgias. Mas a pergunta é outra: tem recurso para isso? Qual a prioridade disso no Orçamento do Estado?” —, conhecer as candidaturas exige alcançar os fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos e meias verdades (que sempre tem uma metade próxima da mentira). O orçamento, afinal, “não é só colocar números no papel. E é aí que o governo deve decidir o que vem primeiro”.

Como sintetiza o candidato em sua regra fundamental: “prometer novos benefícios sem dizer de onde sairão os recursos é esconder do eleitor a parte mais difícil da verdade”, lembrando que “quando tudo é importante, nada é prioridade”. É preciso examinar as trajetórias e escutar com atenção se os argumentos “procuram de fato combater as causas e não apenas as conseqüências”, avaliando “quem está preparado para discutir não apenas o problema, mas as condições para resolvê-lo”.

Associo-me. O ideal é conhecer as candidaturas para além do instagramável. Pesquisar o legado e as entregas dos mais veteranos e, entre os mais jovens, analisar a consistência dos planos e se há como chegar onde termina o arco-íris.

Porém, basta acompanhar artigos recentes em minha própria coluna do Seguinte:, ou navegar pelos perfis de políticos da região, para testemunhar diatribes que vão desde defender pena de morte para pedófilos, mover ação pedindo a cassação de Lula, prometer distribuir o dinheiro do salário em vídeos com carros de luxo, gravar esquete em cemitério falando em hospedar bandido, posar como papagaio de pirata de corrupto, pousar drones de platitudes ou trazer um deus (invariavelmente malévolo) para o mundo mundano da política.

O que o ex-prefeito de Gravataí sugere é bom para a política. Infelizmente, sobrevivemos em um tempo onde até quem faz, e cobre política, odeia a política. Incluo no combo do horror a imprensa tradicional, não só as mídias sócias do Grande Tribunal das Redes Sociais. Um exemplo vivo são as sabatinas do Jornal Nacional, ainda principal mídia brasileira, dedicadas a destruir os políticos e apresentar à nação, como preocupação número 1, contradições e malfeitos, que correspondem a zero vírula zero do orçamento público, enquanto o país é alvo de uma guerra híbrida e o mundo derrete.

Ao fim, para rir da desgraça, recorro a Millôr, que na Bíblia do Caos cometeu um verbete sarcástico sobre a imprensa. Eram os anos 80, mas o conteúdo pode hoje ser integralmente estendido às redes antissociais e ao ecossistema digital que rege as nossas escolhas.

“Imprensa. Destinada a publicar todos os fatos, muitas vezes omite os principais. Toda a verdade é o lema apregoado, uma mentira como tantas que orgulhosamente veicula. Pretende esclarecer e – algumas vezes por pura incompetência – quase sempre complica. Dizendo-se isenta é totalmente partidária, não raro em proveito próprio. Dá aos amigos (quase) tudo, e aos inimigos a injustiça. Na pretensão de nos permitir uma melhor visão dos acontecimentos, todas as manhãs nos apresenta praticamente apenas as angústias do mundo para acrescermos às poucas que são inevitáveis vermos ou ouvirmos com nossos próprios olhos e ouvidos. Na simples exposição e arrumação, que vai das grandes manchetes aos anúncios e ao corpo 6 das mortuárias, eis toda uma escolha – e fabricação – de valores que o público leitor não percebe mas da qual participa como inocente útil. Voz de hoje, herdeira e guarda das informações de ontem, pronunciadora e formadora dos acontecimentos de amanhã, antecipa a História, pois é aí que a História vai buscar a maior parte de seus dados – e eis por que a História é cada vez mais confusa, mentirosa e/ou tola. Deveria ser sempre vigilante e destemida, mas adora os poderosos. E, não rato, cala e consente. Influente na paz, pode facilmente destruí-la com um noticiário negativamente interessado, com a cobertura de um crime político maldosamente deturpado, com informações corrompidas e participações equívocas. E, depois, não tem a menor influência para acabar com o malfeito, que se desenvolve fora de seu alcance, como nas guerras, que só terminam quando se esgotam recursos, fés, interesses e ideologismos que a (des) orientam e sobre as quais a imprensa pretende ter uma influência que quase nunca tem. Promove heróis falsos, esquece os verdadeiro, cansa rápido de qualquer causa nobre, é perspicaz por conveniência, caolha por temor, maledicente quando se pretende irônica. Hoje fala todas as línguas – são poucos, porém, os que a entendem. É lucrativa quando deveria apenas ser auto-suficiente, apressada e leviana nos momentos em que mais deveria ser medida e ponderada, prepotente no exato momento em que ataca a prepotência – como é prepotente! Enfim, a mais perversa, falha e desonesta forma de comunicação e poder inventada pelo homem – excetuando, naturalmente, todas as outras.”

Millôr Fernandes

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