RAFAEL MARTINELLI

Rodrigo Busato assume Prefeitura de Canoas no coração da reconstrução; o ‘fiscal’ dos diques

Rodrigo Busato assumiu nesta segunda-feira (31) a Prefeitura de Canoas. Ele permanecerá como prefeito em exercício até o dia 8 de setembro, durante o período de férias do prefeito Airton Souza. Para entender a simbologia do vice na cadeira de prefeito em exercício — como já divulgou, acompanhando de perto as secretarias, o andamento dos projetos e, sobretudo, o canteiro de obras da proteção anticheias —, é preciso voltar alguns meses.

A terceira maior economia do Rio Grande do Sul enfrenta um incômodo jejum de 14 anos sem eleger um deputado estadual da terra. Com a aposentadoria política do ex-prefeito Jairo Jorge, o espaço para a liderança de Rodrigo Busato em 2026 era nítido e natural. Os bastidores até sinalizavam nessa direção; em viagens anteriores de Airton a Brasília, Rodrigo evitou assumir a Prefeitura para preservar sua elegibilidade. Contudo, em uma decisão calculada, o vice-prefeito optou por declinar da disputa eleitoral deste ano para não abdicar da gestão. Escolheu o concreto ao invés do cálculo de gabinete.

Essa opção reafirma um modelo de governança desenhado no pós-tragédia da enchente de 2024: o pragmatismo implacável. Em uma cidade com o orçamento estrangulado — onde restam parcos 6% de receita livre para investimentos próprios — e pressão por resultados (emergenciais e perenes), não há margem para perder tempo com fofocas, disputas internas pelo poder, ou guerrilhas ideológicas nas redes antissociais.

Airton Souza e Rodrigo Busato construíram juntos o que chamo de a “obra invisível” da atual gestão: o diálogo institucional obstinado, a construção de pontes republicanas com os governos federal e estadual de Lula e Leite, e a recusa absoluta em calçar a ferradura ideológica. A filosofia da era pós-tragédia já foi sintetizada pelo próprio Rodrigo: “Centro, esquerda ou direita querem o dique pronto, não? As pessoas querem resultado, entrega. Não me baseio em pauta ideológica”.

Herdeiro do trânsito livre e do DNA político do pai, o deputado federal Luiz Carlos Busato, Rodrigo assumiu o papel de articulador e fiscal direto dos canteiros. Longe de ser o vice decorativo descrito na clássica máxima de Millôr Fernandes — de que “o ócio faz o vice” —, está na linha de frente das contenções. O próprio Airton o aponta seguidamente como o grande fiscal das obras dos diques.

E o resultado desse pragmatismo de prefeito e vice fica evidente no ritmo de execução. Enquanto municípios vizinhos da Bacia do Gravataí amargam uma exaustiva fila burocrática — com licitações de projetos que empurram o início das obras físicas para o final de 2028 —, Canoas colocou o pé na lama e se posicionou na frente da fila do cinturão de proteção metropolitano.

O contraste ficou desenhado no sábado (22), em uma experiência pedagógica e humana promovida pela Prefeitura: uma visita guiada que levou 110 moradores em dois ônibus para verem, de perto, as obras no Dique do Mathias Velho, na Casa de Bombas 7, no Rio Branco, no Mato Grande e no Muro da Cassol. O roteiro, que contou com Rodrigo, além de Airton e a equipe técnica, atacou diretamente o trauma psicológico da comunidade ao combater boatos e entregar transparência em terra batida. A mensagem: a reconstrução não é feita só de retroescavadeiras, mas da recomposição da confiança. Canoas projeta ser a primeira cidade do Estado a entregar suas obras de resiliência.

Ao fim, como já escrevi anteriormente no Seguinte:, sabemos todos que, na política brasileira, prefeitos e vices sobreviverem um mandato inteiro juntos, em sintonia e sem cultivar rivalidades surdas ou ruidosas, é algo raríssimo — quase um unicórnio. No entanto, a parceria entre Airton e Busato parece restar em um bom momento. Até o dia 8, a caneta de Canoas estará nas mãos do vice que preferiu colocar o pé na lama e fiscalizar diques a calcular votos para a Assembleia.


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