RAFAEL MARTINELLI

Rodrigo Busato não concorre a deputado por Canoas; a opção pelo concreto — e o únicórnio da política

O vice-prefeito de Canoas, Rodrigo Busato (União Brasil) não vai disputar uma vaga na Assembleia Legislativa em 2026.

Havia ambiente para candidatura, como tratei em artigo anterior. A terceira maior economia do Rio Grande do Sul enfrenta um incômodo jejum de 14 anos sem eleger um deputado estadual da terra. Abria-se, com a aposentadoria política do ex-prefeito Jairo Jorge, o espaço de liderança regional. Além disso, os sinais de bastidor já haviam sido emitidos: em viagens recentes do prefeito Airton Souza (PL) a Brasília, Rodrigo evitou assumir formalmente a prefeitura — uma manobra jurídica clássica para preservar a elegibilidade.

Contudo, ao emitir nota oficial à imprensa nesta segunda-feira, comunicando que não concorrerá e que seguirá integralmente dedicado à gestão municipal, Rodrigo Busato impôs uma pausa no cálculo eleitoral para priorizar o calendário de obras.

“Fico profundamente honrado e lisonjeado por ver meu nome lembrado por tantas lideranças e amigos. Depois de refletir bastante, cheguei à convicção de que, neste momento, a minha maior contribuição é seguir trabalhando por Canoas. Vivemos uma fase decisiva, com obras estruturantes em andamento e desafios importantes pela frente. Quero continuar ajudando a acelerar esses projetos e entregar resultados concretos para a nossa população”, diz a nota.

A declaração não deixa de dialogar com o Zeitgeist, o ‘espírito do tempo’, de uma cidade que sofreu o baque da enchente de 2024 — quando metade de seu território ficou submerso e 180 mil pessoas foram atingidas — e que aprendeu, da forma mais dura, que discursos e polarizações não erguem diques nem mantêm hospitais abertos.

Para compreender o impacto da decisão de Rodrigo Busato, é preciso olhar para o modelo de governança que se instalou em Canoas após a catástrofe climática. Em um município com orçamento esmagado — onde restam escassos 6% de receita livre para investimentos próprios —, governar tornou-se um exercício do que chamo de pragmatismo implacável.

Ao lado do prefeito Airton Souza (PL), Rodrigo ajudou a construir o que considero a “obra invisível” da gestão: o diálogo institucional obstinado e sem amarras ideológicas. O vice-prefeito vocalizou com precisão essa filosofia em uma frase que resume a era pós-tragédia: “Centro, esquerda ou direita querem o dique pronto, não? As pessoas querem resultado, entrega. Não me baseio em pauta ideológica”.

Essa recusa em calçar a ‘ferradura ideológica’ — que, nos tempos atuais, só serve para travar o passo da administração e criar trincheiras onde deveriam existir pontes — foi o que garantiu a Canoas aportes milionários. Foi a Realpolitik que assegurou o repasse permanente de R$ 150 milhões anuais do Ministério da Saúde para o Hospital Universitário (HU) e viabilizou obras essenciais de proteção hídrica, como o Muro da Cassol e a elevação dos diques no Mathias Velho e no Rio Branco.

Herdeiro do trânsito livre do pai, o deputado federal Luiz Carlos Busato (União Brasil), Rodrigo optou por cumprir o mandato. Onde, discreto, porém eficaz, fugiu da armadilha comum aos vice-prefeitos: não se tornou um figurante apagado e tampouco um rival ruidoso do titular. Assumiu o papel de articulador e fiscal de canteiro de obras. Como já escrevi, não cabe naquela máxima do Millôr de que “o ócio faz o vice”.

Ao mesmo tempo em que recua do pleito, Rodrigo Busato fez questão de reafirmar seu compromisso com o fortalecimento político da cidade: “Sempre defendi que uma cidade do tamanho e da importância de Canoas precisa ter uma representação forte na Assembleia Legislativa e em Brasília. Esse continuará sendo um objetivo do nosso grupo”.

Na nota, o vice-prefeito ainda não publiciza a candidatura que vai apoiar. Para deputado federal, por óbvio, está com o pai.

Como “o segredo de aborrecer é dizer tudo” (Voltaire), resta a leitura de que Rodrigo Busato não arriscou perder o poder na Prefeitura — o que poderia ocorrer em caso de eleição e a necessária renúncia do mandato de vice-prefeito.

Era a aposta do colega Rodrigo Becker, que conhece muito sobre a política de Canoas.

Sobre os efeitos até 2028, aguardemos. Como escrevi no artigo anterior, sabemos todos que, na política, prefeitos e vices sobreviverem juntos a um mandato é quase um unicórnio.

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