RAFAEL MARTINELLI

Vereador de Glorinha pergunta por que mães de petistas não abortaram — a pergunta de Abujamra a Clodovill e o dilema de ‘O Idiota’

Em março, Alemão Schmidt já havia dito “em minha casa petista não entra”

“Hoje você gostaria de ser menos idiota do que é ou de ter sido menos idiota do que foi?”. Antônio Abujamra fez essa pergunta a Clodovil Hernandes, no programa Provocações, da TV Cultura, em 2003. Deixo o mesmo questionamento ao vereador Alemão Schmidt (MDB), que na sessão da Câmara de Glorinha disse: “Por que as mães de todos os petistas não foram abortistas? Como seria maravilhoso. Nem para ser pai, nem para ser mãe eles servem”.

Excluo, do conceito do substantivo/adjetivo “idiota”, a “pessoa com falta de inteligência”, porque guarda neste tipo de ação reincidente do político um tipo tóxico de inteligência, algo de esperteza para cevar gado chucro nos campos, na cidade e nas redes antissociais. Esse ódio atrai votos. Ao comportamento de javali — que ele mata, de espingarda —, mantenho, porém, a definição do dicionário de “pessoa com falta de discernimento ou bom senso, ou que age com vaidade excessiva e pretensão”.

Observando o jovem Alemão, cria desse Zeitgeist, desse espírito do tempo, resto eu como O Idiota, mas aquele de Dostoiévski, já sabendo a resposta à questão central do clássico: se é possível ser bom em um mundo que não funciona segundo a lógica da bondade.

A atitude do vereador não é um fato isolado, é um sintoma. Como já escrevi anteriormente ao analisar as diatribes desse mesmo político — seja quando declarou que “na minha casa petista não entra”, criando um “distintivo moral” perigoso, ou quando posou “instagramável” exibindo um filhote de javali que abateu —, o problema é que o mundo real não funciona assim. O feijão que Alemão come, alguma mão de esquerda ajudou a plantar, colher, ensacar. O papel que limpa a boca também. O asfalto que sustenta o carro, a luz que acende a casa, o remédio que cura a dor, em algum ponto da cadeia, passou por alguém que ele descartaria como indesejável. Até a arma que ele usa para caçar, em alguma etapa do processo industrial, teve o trabalho de alguém que talvez ele preferisse não “deixar entrar”. E a bolsa de sangue — que tomara não precise — não vem com etiqueta ideológica. O sangue não é de esquerda nem de direita, apesar de vermelho.

Essa sanha de desumanização não é exclusiva do “paraíso entre a Capital, a Serra e o Mar”. Para além das divisas de Glorinha, o avanço da extrema direita entre jovens é uma engrenagem global, coordenada e perigosamente sedutora.

O que acontece na Câmara de Glorinha ressoa de forma assustadora no cenário internacional. Não se trata apenas do vereador bolsonarista do MDB; trata-se de uma onda transnacional onde a estética da violência, a provocação e o “falar o que pensa sem medo de ser cancelado” são vendidos como rebeldia.

Em artigo publicado pela Heinrich-Böll-Stiftung Brasil, a jornalista Andrea Dip escancara essa mecânica ao investigar o avanço do extremismo entre os mais jovens na Alemanha e na América Latina. Ao entrevistar um jovem de 22 anos vinculado a grupos supremacistas brancos no interior alemão, a resposta sobre o porquê de defender a deportação em massa sem ter sofrido nenhuma ameaça concreta foi reveladora: “Não é sobre um fato específico, é mais sobre um sentimento”.

A investigação de Dip revela dados alarmantes dessa guinada.

Há uma escalada eleitoral na Europa: nas eleições alemãs de 2025, o partido de extrema direita AfD alcançou 21% dos votos entre jovens de 18 a 24 anos. Na Saxônia-Anhalt, o partido teve uma vitória histórica no pós-nazismo, com 44% dos votos em 2026.

O fenômeno também é verificável na América Latina: pesquisa da Fundação Friedrich Ebert (com mais de 22 mil jovens em 14 países) aponta que, no Brasil, 17% dos jovens se identificam com a extrema direita.

É a chamada Estética da Provocação: figuras como Javier Milei na Argentina, Nayib Bukele em El Salvador e Donald Trump nos EUA vendem discursos rasos, pânicos morais e a “coisificação” do adversário como fórmula de pertencimento para meninos brancos e frustrados.

Há, por óbvio, formação e financiamento: O avanço não é acidental. Organizações como Students for Liberty e a Political Network for Values financiam bolsas, viagens e capacitações para moldar adolescentes contra pautas de direitos humanos e igualdade.

Voltando ao plenário de Glorinha, fica evidente que Alemão Schmidt operacionaliza, no varejo local, a mesma desumanização do inimigo que os grandes players da extrema direita internacional vendem no atacado. É a “hiper-humanização” dos seus e a transformação do outro em algo descartável — até o ponto de desejar que nem sequer tivessem nascido.

Ocorre que o mandato legislativo é proporcional e pertence a 100% dos cidadãos de um município, não é a “casa” do vereador onde ele escolhe quem entra. Ao transformar a divergência política em negação do direito à vida, o discurso ultrapassa a opinião e vira cumplicidade com a barbárie. A democracia não exige que se goste do outro, mas exige que se reconheça o outro como legítimo. Quando esse reconhecimento se perde, o resto — a violência inclusive — é apenas uma questão de tempo.

Ao fim, talvez meu tom neste artigo, limítrofe, cansado, desistente até, mostre que não há como sair intacto dessa insanidade. Posso admirar mais a um javali do que ao caçador de javalis, mas não seria irresponsável ao ponto de calar diante da erosão da nossa própria civilidade. Eu, O Idiota, de Dostoiévski.

Assista ao vídeo.


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