A vereadora Claudine Silveira (PP) se manifestou sobre a representação protocolada na Comissão de Ética da Câmara de Cachoeirinha que pode resultar, na pena máxima, na cassação de seu mandato.
Analisei a polêmica ontem, em Claudine tem mandato ameaçado em meio à guerra das AIJEs em Cachoeirinha.
Em vídeo publicado nas redes sociais, a parlamentar classificou a denúncia como “tentativa clara de intimidação e perseguição política” e associou a ofensiva diretamente à guerra eleitoral e judicial que segue aberta após a eleição suplementar vencida pela prefeita Jussara Caçapava (Avante).
“Depois da cassação de um mandato de prefeito e vice-prefeito, de uma eleição suplementar difícil e fora de época… agora, novamente, estão tentando nos calar”, afirmou.
Claudine sustenta que sequer foi oficialmente notificada sobre o procedimento e diz acreditar que a denúncia “não deve prosperar”.
“O mais curioso: ainda nem fui oficialmente notificada. Pelo que vi nas redes sociais, a denúncia é infundada”, declarou.
Mas o centro político da manifestação aparece quando a vereadora conecta a representação na Câmara às cinco ações eleitorais que seguem em tramitação na Justiça.
“Hoje existem cinco ações na Justiça Eleitoral que questionam o resultado da eleição. E nesta semana o Ministério Público Eleitoral se posicionou dizendo que o pleito pode não ter sido justo, sugerindo a cassação da chapa eleita”, afirmou.
A fala faz referência ao parecer do Ministério Público Eleitoral em uma das AIJEs que pedem a cassação da prefeita Jussara Caçapava e do vice Mano do Parque (PL) por suposto abuso de poder político.
Sem citar diretamente adversários políticos, Claudine insinuou reação coordenada da base governista.
“O que preocupa é que, enquanto a Justiça analisa os fatos, tem gente tentando agir politicamente para calar a sua voz”, disse.
Em outro trecho do vídeo, a vereadora utiliza uma expressão carregada de simbolismo para a política recente de Cachoeirinha:
“Você já viu esse filme, né?”
O vídeo de Claudine funciona menos como defesa jurídica e mais como tentativa de reposicionamento político. A vereadora procura transformar a condição de denunciada em condição de vítima política — algo relativamente comum em ambientes de forte judicialização institucional.
A representação apresentada pelo suplente Santo Edir Oliveira (MDB), o Chapolin, nasceu justamente dentro da lógica política inaugurada — ou pelo menos aprofundada — nos últimos anos em Cachoeirinha: a institucionalização permanente do conflito.
É, só neste ano, denúncia contra prefeito. É impeachment. É eleição suplementar. É AIJE contra chapa eleita. É Comissão de Ética contra vereadora. É uma cidade que passou a viver em campanha, em tribunal e em crise ao mesmo tempo.
No vídeo, Claudine tenta produzir uma inversão narrativa importante: sustenta que a tentativa de cassação não seria apenas contra ela, mas contra os eleitores que representa. Ela perdeu a eleição por apenas 530 votos.
“Quando tentam calar um representante, estão tentando calar toda uma população”, afirmou.
Politicamente, é uma construção inteligente. Especialmente porque o parecer do Ministério Público Eleitoral pedindo cassação da chapa vencedora devolveu oxigênio político ao grupo derrotado na eleição suplementar. O vídeo tenta conectar esses dois movimentos.
A mensagem implícita é óbvia: enquanto a oposição avança na Justiça Eleitoral, o governo reagiria politicamente na Câmara.
O ‘Dia da Marmota’ continua
No artigo que publiquei ontem no Seguinte:, observei que Cachoeirinha parece incapaz de sair do próprio ‘Dia da Marmota’ (como no filme) institucional. E o vídeo de Claudine apenas reforça isso.
Porque ele mostra que todos os grupos políticos da cidade passaram a operar dentro da mesma lógica. Quando estavam sob ataque, denunciavam perseguição. Quando estão no poder, acionam maioria parlamentar, comissões processantes, representações e mecanismos institucionais.
A engrenagem se retroalimenta.
O mais interessante — e talvez mais perigoso — é que ninguém mais parece discutir apenas gestão pública. Tudo virou disputa de legitimidade. A eleição terminou nas urnas, mas continua na Justiça. Continua na Câmara. Continua nas redes sociais. Continua nos vídeos emocionais. Continua nos bastidores.
E continuará enquanto houver ambiente político para transformar derrota eleitoral em batalha institucional permanente.
Claudine sabe disso. Chapolin sabe disso. O grupo de Jussara sabe disso. Todos conhecem o roteiro porque todos já participaram dele em algum momento — ora denunciando, ora sendo denunciados.
No fundo, o vídeo da vereadora talvez tenha acertado numa frase sem querer. Cachoeirinha realmente já viu esse filme. Um longa-metragem de uma década.
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