RAFAEL MARTINELLI

A biópsia da tempestade: a ansiedade que corrói o RS enquanto a água reencontra ‘os pobres de sempre’

Enchente de 2024 / Foto: Arquivo

Vi um cartoon de Rodrigo Geraldi enquanto a tempestade caía lá fora, na escuridão de mais uma noite em que o céu desabava sobre o Rio Grande do Sul. A personagem, deitada na cama, olhava para a tela do celular com estampada cara de pavor e pensava: “começo o dia consultando o nível do Guaíba com a apreensão de quem aguarda o resultado de uma biópsia”. Em seguida, tomando um café e observando a chuva impiedosa pela janela, refletia: “a previsão do tempo deixou de ser um assunto banal. Não queremos mais saber se vai chover, mas se a cidade continuará existindo na quinta”. A conclusão definitiva vinha ao escovar os dentes, escutando no rádio o anúncio repetitivo de que a Defesa Civil mantinha o alerta: “algo deu muito errado quando consultar o nível de um rio antes de escovar os dentes passa a ser organização para sobreviver”.

É rigorosamente impossível não se identificar. Minutos antes de me deparar com a tirinha, ao olhar pelos vidros embaçados da sacada — mesmo vivendo no quinto andar de uma avenida imune até mesmo à histórica enchente de maio de 2024 —, experimentei segundos de pânico. Um sentimento físico, visceral, ao ver a chuva cair torrencial sob a iluminação de um poste de mais de 30 metros que dançava ao vento. Recompus-me para seguir trabalhando e me apavorando com as previsões de técnicos e políticos, sem conseguir afastar o pensamento das pessoas que vivem nas manchas de inundação. E também nos animais.

Enquanto escrevo, os boletins oficiais confirmam que a física não perdoa incertezas. A Prefeitura de Gravataí e o Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS apontam que o Rio Gravataí ultrapassou formalmente a cota de inundação (4,75 metros), atingindo 4,82 metros nesta quarta-feira (29), subindo à taxa constante de 1 centímetro por hora. A Defesa Civil do Estado emitiu alerta vermelho para risco muito alto de inundação no município. O IPH projeta uma elevação ainda mais severa para o próximo final de semana (1º e 2 de agosto), e a MetSul lista o manancial entre aqueles de risco crítico, alertando que prossegue o perigo de tornados, vendavais intensos e granizo de grande porte.

Na ponta mais vulnerável dessa engrenagem, o enredo se repete com uma pontualidade cruel. Alguns daqueles a quem chamo, a cada cheia, de ‘os pobres de sempre’ já precisaram arrumar os escassos pertences e deixar suas casas na Vila Rica e no Barnabé, em Gravataí, buscando abrigo provisório na casa de parentes. É o ecossistema da emergência em operação: lonas distribuídas via Portal ARCA, rondas de porta em porta da Guarda Municipal e da Defesa Civil, enquanto canais como o 153 e o WhatsApp emergencial tentam conter o incalculável.

A ciência do trauma: o custo psíquico da crise climática

O pânico experimentado na sacada ou a angústia ao escovar os dentes não são paranóia individual; são sintomas coletivos de uma sociedade traumatizada. Uma pesquisa inédita recém-publicada na revista Cadernos de Saúde Pública, da Fiocruz, dá dimensão científica a esse colapso silencioso. Coordenado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), em parceria com a UFRGS, FURG e as americanas Brown e University of Southern California, o estudo acompanhou 2.494 adultos no âmbito da Coorte PAMPA (Estudo Prospectivo sobre Saúde Mental e Física em Adultos).

Os números são estarrecedores: 83,8% da população avaliada teve sua vida impactada pelas enchentes de 2024. O desastre climático esteve associado a um excesso de 77% nos sintomas de ansiedade e de 129% nos sintomas de depressão em relação à trajetória esperada sem a tragédia. Entre os grupos de alta sobrecarga (29,7% do total), o deslocamento forçado atingiu 36% das pessoas — e estar fora de casa elevou a prevalência de quadros depressivos e ansiosos em até 90% comparado ao padrão pré-crise. O estudo comprova o que a sensibilidade já percebia: a dor é profundamente desigual, penalizando com maior severidade pessoas pardas, de menor escolaridade e que vivem sozinhas.

“Os achados evidenciam que desastres climáticos não são apenas eventos ambientais, mas crises de saúde pública de longa duração que aprofundam desigualdades sociais já existentes”, advertiu a GZH, no lançamento da pesquisa, em maio, o pesquisador Natan Feter, coordenador da Coorte PAMPA.

Iniciada em 2020 para medir os impactos indiretos da pandemia de Covid-19, a pesquisa da UFPel precisou se estender para capturar o rastro do novo flagelo gaúcho. O paralelismo é inevitável: o medo do vírus invisível deu lugar ao medo do céu escuro. A cada vez que a tarde vira noite precocemente e o temporal desaba, o gatilho emocional se dispara. É a neurose da sobrevivência instalada na rotina diária do Rio Grande.

O mosaico dos diques e a física que não espera por 2031

Diante desse quadro de vulnerabilidade emocional e física, a resposta infraestrutural do Estado caminha a passos que contrastam com a urgência dos rios. Em seminário promovido pela Comissão Externa da Câmara dos Deputados no Centro das Indústrias de Cachoeirinha (CIC), nesta segunda-feira (27), o secretário da Reconstrução Gaúcha, Pedro Capeluppi, estimou que a conclusão do cinturão completo de diques da Região Metropolitana de Porto Alegre deve ocorrer apenas em 2031.

É aqui que a análise técnica precisa se impor sobre a retórica. Cinco anos de espera, em tempos de crise climática acelerada e episódios frequentes de ‘Super El Niño’, representam uma eternidade. Mais do que isso: a entrega assíncrona dessas obras gera um perigo hidrodinâmico imediato. Diques prontos em certos municípios antes de outros podem simplesmente desviar a massa de água e levá-la a desbravar caminhos desimpedidos rumo às regiões desprotegidas. Enquanto Canoas exibe frentes avançadas com aportes superiores a R$ 213 milhões no Dique Mathias Velho e Dique Rio Branco, e Alvorada avança visivelmente, Cachoeirinha e Gravataí restam com suas obras relegadas aos últimos lugares da fila de prioridades.

Como tenho insistido em uma série de artigos publicados no Seguinte:, a hidrodinâmica não responde a slogans e a água não vota; ela simplesmente encontra o seu caminho. A Bacia do Rio Gravataí é um sistema hidrológico de extrema fragilidade, marcado por um desnível topográfico irrisório — cerca de apenas 10 metros ao longo de quase 100 quilômetros entre a nascente em Santo Antônio da Patrulha e a foz no Guaíba. Em mananciais de declividade tão baixa, o fluxo é lento e o represamento é natural. Soluções mágicas trazidas pelo ‘populismo da retroescavadeira’ ou pelo bordão do ‘desassorear tudo’ sem modelagem científica são ilusões perigosas. Acelerar o fluxo sem visão sistêmica pode empurrar a cheia para jusante ou arruinar as reservas no verão.

É essa percepção de vulnerabilidade que levou a prefeitura de Cachoeirinha a encomendar um estudo técnico independente para avaliar os impactos das obras de proteção do Aeroporto Salgado Filho sobre o seu território. A cidade recusou o conformismo de restar em uma ‘bacia das almas’, absorvendo o refluxo das intervenções dos vizinhos. Quando o estado e órgãos técnicos acenam com elevações projetadas de meros “sete milímetros”, a população traumatizada — que viu bairros inteiros submersos — pergunta com razão: qual é a margem de erro aceitável quando o rio volta a subir?

O tornado da angústia

Não há mais espaço para o negacionismo climático ou para o paroquialismo administrativo no Rio Grande do Sul. Quando observamos imagens aterradoras de um tornado deixando um rastro de destruição e sete feridos a poucos quilômetros de nossas casas, fica evidente que o ‘novo normal’ exige instituições desenhadas para durar décadas, e não apenas até o próximo pleito eleitoral.

Iniciativas legislativas como a criação do Instituto das Águas do Rio Grande do Sul (PL 195/2024) e da Autoridade Metropolitana apontam para o único caminho sustentável: gerenciar o sistema de proteção de forma unificada, com autonomia técnica, inteligência hidrodinâmica e monitoramento contínuo. A água não reconhece divisas municipais entre Porto Alegre, Canoas, Cachoeirinha, Gravataí ou Alvorada. Se o sistema de contenção não for integrado e harmônico, a correnteza encontrará a brecha do elo mais fraco.

Ao fim, enquanto as estruturas definitivas não chegam e o horizonte de 2031 permanece distante, o gaúcho segue olhando para o céu com a angústia de quem aguarda um diagnóstico. A previsão do tempo deixou de ser conversa de elevador para se tornar a métrica da paz de espírito. Para que a população não precise mais consultar a régua do rio antes de escovar os dentes para saber se a sua casa ainda existirá na quinta-feira, a ciência e a engenharia de proteção precisam andar mais rápido do que as nuvens que voltam a se carregar na linha do horizonte.

Resto na multidão de angustiados.


SERVIÇO

Boletim Situacional e Monitoramento Hidrológico (29/07/2026)

  • Nível do Rio Gravataí: 4,82 metros (Cota de inundação: 4,75m | Elevação: +1cm/h)
  • Locais Atingidos: Vila Rica e Barnabé (Gravataí). Retiradas preventivas e entregas de lona (Portal ARCA).
  • Projeção IPH/UFRGS: Risco de elevação continuada até o final de semana (01/08 e 02/08).
  • Ferramentas Oficiais: HidroWeb Mobile (ANA/SNIRH) e Portal ARCA de resposta rápida.

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