RAFAEL MARTINELLI

A pausa para hidratação de Alan Vieira: um recuo calculado na Copa da Política de Gravataí

Se a política é a arte de administrar o tempo, saber a hora de não entrar em campo é tão determinante quanto a decisão de ir para o jogo. Há, neste metiê, muito antes da Copa, pausas para hidratação.

No sábado (25), o ex-vereador e ex-presidente da Câmara de Gravataí, Alan Vieira, comunicou formalmente que não disputará as eleições de 2026. O convite do Partido Novo do Rio Grande do Sul — com direito a apelos da direção estadual e do deputado federal Marcel van Hattem para que concorresse a deputado estadual ou federal — foi declinado com a diplomacia de costume.

Em nota, Alan justificou a opção pelo foco na família, em suas empresas no setor de inteligência tributária e contabilidade e na defesa do empreendedorismo. “O compromisso permanece o mesmo: servir à sociedade. Apenas muda a forma de fazer isso”, sintetizou, no post.

À primeira vista, para quem lê de forma apressada os bastidores da aldeia, o anúncio soa como uma desaceleração. Para quem conhece a caminhada de Alan, no entanto, a leitura é oposta: trata-se de um recuo calculado. Uma retirada temporária do campeonato.

Para contextualizar, é preciso rebobinar o filme recente. Na janela partidária deste ano, analisei no Seguinte: a ruidosa movimentação em que Alan deixou o MDB após duas décadas — o único partido da sua vida, onde se formou como o principal ‘filho político’ de Marco Alba — para se filiar ao Novo. O movimento foi gestado pela executiva estadual da sigla, mas desembarcou com peso de tempestade na política local.

Afinal, na aldeia, o Novo integra a base do governo Luiz Zaffalon (PSD). E Alan traz nas costas a memória viva das guerras mais sangrentas da história recente de Gravataí. Naquela que chamei III Guerra Política de Gravataí, foi ele quem assinou as notas mais duras contra Zaffa na ruptura, e sustentou a narrativa da traição quando o atual prefeito deixou o MDB. Ao aportar na sigla, gerou uma saia-justa imediata na base governista.

A crise foi desarmada semanas depois, como também registrei. Os homens do governo Zaffa no Novo — como os secretários Régis Fonseca e Bruno Palaver — se desfilaram do partido para apoiar a pré-candidatura de Dr. Levi Melo (Podemos) a federal sem alimentar um atrito interno. O Novo ficou livre para Alan. A vaga para concorrer a deputado estava ali, de bandeja, pronta para o uso.

E por que Alan optou por não ir?

Porque Alan nunca escondeu de amigos e de quem acompanha seus passos que o seu verdadeiro sonho político não é uma cadeira na Assembleia Legislativa ou na Câmara dos Deputados: seu objetivo de vida política sempre foi disputar a Prefeitura de Gravataí.

Em 2024, quando o MDB procurava um nome para a vice-prefeitura na chapa de Marco Alba, Alan era a escolha natural. Dono de perfil conservador, articulador habilidoso e com trânsito amplo no eleitorado de direita, foi preterido pela aliança com Thiago De Leon (PDT). Não reclamou. Em vez de criar atrito, deu um passo atrás, abriu mão de disputar a reeleição para o quarto mandato de vereador e foi coordenar a campanha do seu ‘pai político’. Foi, talvez, um dos grandes ‘pênaltis perdidos’ daquela engenharia eleitoral de Marco Alba, um ‘Pelé da Política’, como cheguei a analisar.

A decisão de ficar fora de 2026, portanto, não é desistência; é preservação. Alan optou por assistir de fora a esta eleição para conhecer melhor a nova geografia do eleitorado, medir a força das alianças reconfiguradas, testar quem sai fortalecido ou enfraquecido das urnas e observar de perto a dança das inimizades estreitadas na política. Trata-se de um óbvio período de maturação estratégica para preparar o terreno rumo a 2028.

Cria da escola política de Marco Alba, Alan aprendeu desde muito jovem que na política a oportunidade não espera os desatentos. Ele sabe que não pode brincar com o tempo. Os fios brancos chegam para todos, mas o ‘platinado’ da dinâmica política corre em uma velocidade ainda mais vertiginosa. É a perfeita tradução daquela máxima sarcástica de Millôr: “O futuro chega com tal rapidez que começo a desconfiar que agora já está atrás de mim”.

Lento, Alan nunca foi. Com 12 anos de mandato, ex-presidente da Câmara e operador experiente, ele sabe que a política é um jogo de paciência e timing. Ao recusar a disputa de 2026, ele evita o desgaste de uma campanha fracionada, guarda seu capital político intacto e se consolida como uma peça ‘descansada’ — ou menos desgastada pela seqüência diária de faltas da política — para a sucessão municipal que se desenhará ali na frente.

Ao fim, na politica da aldeia, como já cansei de repetir, há os que estão sem estar — e os que não estão, mas estão. Alan acaba de provar que continua em campo. Apenas preferiu amarrar bem as chuteiras antes de buscar a titularidade em 2028.


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