RAFAEL MARTINELLI

Airton vai aos grevistas de Canoas, reconhece movimento e aposta no diálogo — e acerta

Prefeito em meio aos grevistas antes de reunião na Prefeitura, na semana passada

Na política, há momentos em que a decisão não está no “sim” ou “não”. Está no gesto. Na manhã desta quarta-feira, o prefeito de Canoas, Airton Souza (PL), fez uma escolha que diz mais sobre método do que sobre resultado: desceu do gabinete.

Entre aplausos e vaias, abraços e cumprimentos — alguns efusivos, outros apenas protocolares — foi ao microfone dos grevistas.

– Vim cumprimentar a todos e reconhecer a luta de vocês como legítima. O diálogo é importante e único caminho para encontrar soluções. Vocês têm um prefeito que não foge – disse; e postou.

Depois, anunciou: subiria com o comando de greve para reunião.

Ainda não há desfecho. A assembleia da categoria, marcada para esta quinta-feira, dirá mais sobre os próximos passos do movimento do que qualquer discurso. Mas há algo que já pode ser dito: reputo que o prefeito acertou.

Reconhecer uma greve como legítima não é ceder. É enquadrar. É dizer que há um conflito — e que ele será tratado como tal, não como ruído, nem como afronta.

A greve dos professores, organizada pelo Sinprocan, não é pequena. Conforme o sindicato, na semana passada já havia 85% de adesão das escolas no primeiro dia. Agora, todas teriam aderido, com cerca de 60% completamente fechadas.

A pauta é aumento real de salário, cumprimento do piso do magistério, nomeação de concursados, melhores condições de trabalho, revisão de carreira.

É o tipo de reivindicação que não se resolve com uma nota oficial. Nem com silêncio.

O diálogo não garante vitória. Garante transparência. Reconhecer a legitimidade da luta significa que o governo vai atender todos os pontos? Não. E aqui está o ponto central — e mais difícil de sustentar politicamente.

O diálogo não é promessa de concordância. É compromisso com a exposição. Porque Canoas não negocia em um cenário neutro. Negocia dentro de um orçamento pressionado.

Como já escrevi, o município vive um daqueles quadros que não cabem em manual: déficits que variaram entre R$ 300 milhões e R$ 450 milhões, com projeção ainda de cerca de R$ 250 milhões. Um esforço de contingenciamento que economiza até R$ 14 milhões por mês. E uma cidade que ainda paga a conta — visível e invisível — da enchente de 2024.

A folha está em dia. Mas à custa de compressão do restante. A equação é simples de escrever. Difícil de resolver. E é justamente por isso que o diálogo importa.

Porque é nele que o governo precisa fazer algo que muitos evitam: abrir a planilha. Explicar por que não dá — quando não dá. E mostrar onde pode dar, quando for possível.

O método Airton

O gesto de hoje não é isolado. É coerente. Desde o início do governo, Airton tem operado dentro de uma lógica que chamei de “ideologia dos números” combinada com a “ideologia da tragédia”.

Traduzindo: reconhecer o tamanho do problema fiscal sem ignorar o tamanho da pressão social.

Isso exige duas coisas que raramente andam juntas: austeridade e presença. Cortar gastos e aparecer.Negociar com números e conversar com gente.

Ao ir até os grevistas, o prefeito reafirma esse método. Não terceiriza o conflito. Não se esconde atrás da burocracia. Não transforma a crise em nota de assessoria. Vai. E, ao ir, assume o risco.

Porque diálogo ao vivo não tem edição.

Há, claro, um risco político. Ao reconhecer a legitimidade da greve, o prefeito eleva o patamar da negociação. Cria expectativa. Dá centralidade ao movimento.

Mas a alternativa — ignorar, minimizar, confrontar — costuma produzir algo pior: radicalização sem mediação. E, no limite, perda de controle do processo.

Ao optar pelo diálogo, Airton não resolve o problema. Mas passa a controlá-lo.

Em nota, a Prefeitura listou um conjunto de medidas já adotadas, como a contratação de 500 monitores de inclusão (com parte já iniciando atuação), a realização de concurso público para reforçar o quadro de servidores e a manutenção de benefícios como vale-alimentação e auxílio-transporte.

Acrescenta que a gestão, além de investimentos em tecnologia e melhorias na infraestrutura das escolas, também retomou as eleições para diretores escolares, corrigiu descontos aplicados a aposentados e criou o cargo de vice-diretor em escolas que não contavam com a função.

Ao fim, a reunião desta quarta-feira pode avançar. Pode travar. Pode produzir uma proposta intermediária que será aceita ou rejeitada na assembleia. Isso faz parte.

O que não é detalhe é o método. Em uma cidade pressionada por números duros e por demandas legítimas, governar não é escolher entre planilha e praça. É conseguir estar nas duas.

Hoje, o prefeito esteve. E, neste caso, estar já é parte da resposta.


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