crise do coronavírus

Gravataí compra sacos para corpos; gripezinha, vodca e a impronunciável COVID 19

As fotos da Agência Reuters mostram sacos de corpos retirados de hospital de Nova Iorque

A informação é uma arma na guerra contra o novo coronavírus. Por mais que leitores tenham ficado incomodados com Cemitérios de Gravataí preparados para mortes por COVID 19; o alerta de Manaus – algo que previ no próprio artigo, por já ter acontecido quando antecipei sepultamentos sem velório em Vítimas da COVID 19 devem ser cremadas em Gravataí; caixão fechado – infelizmente, são os fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos; e no caso da pandemia, mais fortes do que desejo, torcida, simpatia ou reza.

A cobra silenciosa da COVID-19 é uma realidade.

Dos mais de R$ 1,3 milhão em ordens de compras que a Prefeitura de Gravataí lançou neste mês de abril no Portal Transparência, R$ 3.396 foram para a aquisição de “sacos de óbito impermeável”.

Cada custa R$ 16,98. O orçamento permite a compra de 200 sacos.

Para efeitos de comparação, a Federal Emergency Management Agency, a agência gerenciadora de crises norte-americana comprou 100 mil dia 2 de abril.

Nas ordens de compra estão desde EPIs, aqueles equipamentos de proteção individual para profissionais de saúde, como máscaras, aventais, luvas e uniformes, até seringas, álcool etílico, tubos de oxigênio, mangueiras para respirador e medicamentos.

Entre os remédios não está a cloroquina.

Ao fim, a comunicação é minha trincheira, 24h, 7 dias por semana desde nossa inclusão na pandemia, em março. Não me agrada em nada dar esse tipo de notícia – só psicopatas curtem a guerra. Mas é papel do jornalismo dar nome às coisas.

Gravataí está em calamidade pública por seis meses. São 16 casos confirmados e 11 aguardando resultado entre apenas 168 testes feitos.

Ontem, em É moralmente homicida pressão pela volta da ’vida normal’; o que fará Gravataí?, apliquei em Gravataí estudo percentual de 1,43% confirmações entre 3.196 testes feitos no Distrito Federal entre a segunda e a terça. O potencial seria de 4 mil infectados entre os 281 mil habitantes. Abaixo da média nacional de 6,3 casos a cada 100 mil habitantes, mas um número preocupante, já que o isolamento social que experimentamos chega, no máximo, a metade da população, fazendo uma média entre a estimativa do governo do RS e dados do Google.

Para se ter ideia da importância da informação, um estudo publicado em 11 de março pela Universidade de Southampton, no Reino Unido, se a China tivesse confirmado a epidemia uma semana antes, a queda na infecção e morte no mundo seria de 66%; duas semanas 86% e, três semanas antes, 95%.

Significa que se o governo chinês tivesse agido de forma transparente, sem silenciar pesquisadores e jornalistas, com sumiços, prisões e bloqueio de palavras nas redes sociais, o vírus SARS-CoV-2 poderia ter ficado restrito ao epicentro em Wuhan.

Nota da entidade francesa Repórteres sem Fronteiras denunciou em 25 de março que “sem o controle e censura impostos pelas autoridades, a mídia chinesa teria informado muito antes a população sobre a gravidade da epidemia, salvando milhares de vida e possivelmente evitando a atual pandemia”.

No Brasil de hoje, em que manifestações pedem “intervenção militar para garantir a liberdade”, como tratei em Patéticos e perigosos na porta do quartel; o presidente do meu país é um criminoso, não surpreende o negacionismo vir de parcelas do povo – é só observar os ataques à imprensa profissional no Grande Tribunal das Redes Sociais. "Matamos o mensageiro, eliminamos o vírus!” é uma fake news.

Jair Bolsonaro tem culpa, não só sobre a ascendência típica de um ‘Jim Jones, com mamadeiras de piroca nas mãos, fazendo arminha’, mas principalmente pela força que tem as palavras de um presidente em rede nacional e todos os dias na mídia.

Discursos perigosamente direcionados a captar e aumentar o contágio do ódio entre pessoas com medo, sem dinheiro, com fome. Ao chamar a maior peste da humanidade na história moderna de “gripezinha”, nosso presidente, apesar de eleito democraticamente, apequena-se ainda mais ao associar-se somente a ditadores.

Tão ‘napoleão de hospício’ é quanto Alexander Lukashenko, autocrata de Belarus, que em entrevista ao The Times sugeriu que a população “envenene” o vírus com vodca e lave as mãos com a bebida.

– Cada um deve tomar 40 ou 50 mililitros por dia – receitou, com uma ressalva: “não no trabalho”.

Candidato a ‘mito’ dos negacionistas é Gurbanguly Berdymukhamedov. O ditador do Turcomenistão determinou o banimento da palavra ‘coronavírus’ em publicações oficiais, na imprensa e em conversas informais. A polícia pode prender qualquer pessoa que usar a palavra em local público – mesmo que seja para pedir socorro.

Ao fim, mesmo que tantos acreditem que tudo ‘volta ao normal’ a partir do dia 1º de maio, com a anunciada retomada de atividades econômicas em Gravataí, Cachoeirinha e região metropolitana, seguirei na trincheira da comunicação. Como já disse em Parem Gravataí que eu quero descer!; declaro-me Inimigo do Povo, amigo da vida, torço para estar errado e ser o alarmista, o ‘Louco da Aldeia’. Infelizmente, até o momento, não é o que o mundo prova. Fato é que estamos no fim do início da pandemia no Rio Grande do Sul.

Preparemo-nos para um longo inverno.

 

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