RAFAEL MARTINELLI

O aeroporto está protegido; e Cachoeirinha? A obra de R$ 47 milhões que atropelou o tempo da Bacia do Gravataí

O Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) de Porto Alegre concluiu, com festejada antecipação, a instalação das comportas nos diques dos arroios Passo das Pedras e Areia. Uma intervenção de R$ 47 milhões, erguida em “ritmo chinês” de dois meses — conforme aspas do prefeito Sebastião Melo —, para blindar os pôlderes 7 e 8, a Zona Norte da Capital e o Aeroporto Internacional Salgado Filho contra cheias do Rio Gravataí.

O feito técnico, celebrado com entusiasmo na quinta-feira (27) pelo prefeito e pelo diretor do Dmae, Vicente Perrone, é um alento indiscutível para a infraestrutura crítica do Rio Grande do Sul. O problema — como venho insistindo em uma série de artigos no Seguinte: — é que a física não lê boletim oficial, a água não vota e, principalmente, os rios ignoram as divisas desenhadas nos mapas municipais.

A entrega da obra na Zona Norte expõe um contraste incômodo e escancara a miopia que ainda domina a gestão de riscos na Região Metropolitana. O dique do aeroporto é dado como operacional no exato momento em que a Prefeitura de Cachoeirinha sequer possui o resultado do estudo técnico independente que anunciou contratar no final de julho.

A decisão da prefeita Jussara Caçapava — gestada sob a pressão legítima de diferentes lados da ferradura ideológica — foi um gesto político e institucional de busca por um habeas corpus preventivo. A meta era auditar os dados para não aceitar passivamente a tese de que a barreira na Capital traria impactos “não relevantes” ou meros “sete milímetros” de elevação na Bacia do Gravataí — o que engenheiros do Dmae chegaram a comparar didaticamente a “pouquíssimos pingos d’água numa bacia de 2 mil km²”.

Entretanto, enquanto Cachoeirinha segue sem estudo e a Secretaria da Reconstrução Gaúcha fixa um prazo de 13 meses para que os moradores de municípios da Bacia do Gravataí conheçam o diagnóstico do anteprojeto do seu próprio sistema de contenção — cujas obras físicas só devem ver a luz do sol em 2028, com conclusão prevista para 2031 —, o concreto de Porto Alegre já está seco e operando dentro da bacia.

Como citou o escritor moçambicano José Luandino Vieira, “a verdade e a mentira não podem ser separadas enquanto não soubermos tudo”. E o que sabemos hoje é que o aeroporto está salvo antes que Cachoeirinha saiba a extensão real do risco que corre.

Fato é que essa falta de sincronia não é meramente um problema de calendário local; é o sintoma da completa ausência de uma articulação regional sistêmica na construção do ‘cinturão de diques’ metropolitano. Na reconstrução pós-2024, cada cidade parece restrita ao seu próprio muro, potencialmente transferindo a pressão hidráulica para o território ao lado.

Quando Porto Alegre fecha a porta de entrada da cheia na Zona Norte sem integrar essa decisão em um plano único com o ecossistema do Gravataí, a pergunta que assombra a população de Cachoeirinha e do entorno emerge com plausibilidade: para onde vai a água represada?

Ao fim, reputo que salvar a infraestrutura da Capital (e do capital) em tempo recorde enquanto a periferia lindeira aguarda anos por anteprojetos no papel desenha uma hierarquia perversa da proteção. E sigo insistindo: Cachoeirinha não pode ser condenada a restar como a ‘bacia das almas’ da Região Metropolitana até 2031 — acolhendo silenciosamente a água que o concreto dos vizinhos recusou receber. É preciso garantias científicas e governamentais mais explícitas.


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