RAFAEL MARTINELLI

Prazo é de 13 meses para moradores do Parque da Matriz conhecerem soluções para enchente — e o medo das obras no aeroporto, ainda

O caminho das águas, a partir de obras de dique emergencial para o entorno do aeroporto, preocupa moradores de toda região

Nas noites em que a chuva volta a castigar a Região Metropolitana, a régua do rio continua sendo consultada como quem aguarda o resultado de uma biópsia. Essa ansiedade represada — que descrevo insistentemente no Seguinte:; e mais recentemente ao analisar o edital de R$ 5,7 milhões para atualização dos estudos da Bacia do Rio Gravataí — ganhou rosto, voz e endereço nesta terça-feira (25).

Membros da Comissão de Moradores do Parque da Matriz cruzaram a ponte e foram até a Secretaria da Reconstrução Gaúcha. Diante de Guilherme Kruger, subsecretário de Projetos Estruturantes, e de Alexandre Mees, diretor de Projetos para Resiliência, os moradores exigiram respostas concretas do governo Eduardo Leite para a angustiante lentidão das obras de proteção e colocaram contra a parede os impactos das intervenções no Aeroporto Internacional Salgado Filho.

É preciso resgatar a genealogia dessa mobilização, que foi a Porto Alegre após o Seguinte: revelar com exclusividade a abertura da licitação.

Foram estes mesmos moradores que primeiro moveram as engrenagens locais, após a tragédia da enchente de 2024. Mobilizaram a prefeita Jussara Caçapava, o vice Mano do Parque e os secretários municipais, forçando uma articulação direta com o Estado para que o Parque da Matriz — com suas vulnerabilidades na BR-290 e falhas em estruturas de drenagem — não restasse esquecido como uma ilha de omissão no mapa.

O retorno oficial trazido da reunião reflete o ritmo arrastado da burocracia diante do trauma coletivo. O edital para contratar a empresa que atualizará o anteprojeto da Bacia do Gravataí segue seu curso para que os trabalhos iniciem em dezembro de 2026. A partir da assinatura do contrato, a vencedora terá 13 meses para apresentar o diagnóstico de viabilidade: definir se o Parque da Matriz e o entorno terão muros, diques ou bacias de amortecimento, qual a cota necessária para evitar novas tragédias e quantas famílias poderão enfrentar a dolorosa perspectiva de desapropriação. Prometeu-se, também, a realização de audiências públicas.

A matemática dos prazos, contudo, é implacável. Se os estudos levam 13 meses, a projeção oficial para o início das obras físicas empurra o primeiro trator para o primeiro semestre de 2028. Para quem perdeu móveis, memórias e a paz em maio de 2024, viver sob a promessa de retroescavadeiras apenas em 2028 soa como uma eternidade inaceitável.

A indignação da comissão ganhou contornos ainda mais graves ao confrontar o ritmo discrepante entre a proteção comunitária e a infraestrutura do capital. Moradores questionaram por que as intervenções no Salgado Filho operam em ritmo acelerado de dia e de noite, enquanto as defesas dos bairros caminham a passos lentos. Pressionaram, também, sobre a ausência de audiências públicas do RIMA (Relatório de Impacto Ambiental), cobrando transparência sobre o impacto real das obras do aeroporto para Cachoeirinha, Canoas, Gravataí e Alvorada.

A resposta da Secretaria da Reconstrução manteve a linha defensiva: a obra do Salgado Filho é emergencial e visa proteger também a zona norte de Porto Alegre e o Sarandi, ficando a estrutura definitiva para um segundo momento. O argumento, porém, não dissipa o receio que venho alertando em série de artigos.

Trata-se do fantasma do “efeito bacia das almas”. Embora estudos do DMAE encomendados pela capital apontem uma elevação máxima de sete milímetros no nível da bacia — o que engenheiros classificam como “pingos d’água numa bacia de 2 mil km²” —, a população traumatizada recusa a confiança cega. Como critiquei ao abordar o “populismo da enchente”, slogans não substituem a ciência hidrodinâmica, mas a física não lê boletim oficial nem ignora que a água represada em um canto busca vazão nos territórios vizinhos. A decisão de Cachoeirinha em contratar um estudo independente para auditar o Salgado Filho reflete exatamente essa desconfiança legítima.


Políticas além dos políticos

Ao fim, entre a promessa de verbas bilionárias de Funrigs, PAC e a realidade de anteprojetos em papel, a Bacia do Gravataí atravessará os próximos anos sob vulnerabilidade explícita. O sinal de alerta emitido pelos moradores do Parque da Matriz é o lembrete mais vivo de que a sociedade cansou de ser mera espectadora.

E, registre-se, a partir de um movimento comunitário, que busca evitar identificação com grupos políticos, ao cobrar políticas de Estado, não apenas do governo de turno.

Como escreveu o moçambicano José Luandino Vieira, “a verdade e a mentira não podem ser separadas enquanto não soubermos tudo”. Por ora, o Parque da Matriz tem um calendário de 13 meses de espera pela frente. É o mesmo prazo para toda Bacia do Gravataí, que na região ficou para o fim da fila. A dúvida que permanece é se o tempo da burocracia e as certezas técnicas do Estado conseguirão correr mais rápido do que a impiedosa física da natureza.


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