RAFAEL MARTINELLI

Cachoeirinha, Gravataí e Canoas entram na lista de risco do Super El Niño: RS lança plano, mas cinturão de diques só ficará pronto em 2030

O que o governo Eduardo Leite lançou nesta quarta-feira talvez seja menos um programa e mais um aviso.

O nome oficial é Prepara RS – El Niño. O decreto cria uma mobilização extraordinária da Defesa Civil, reúne 11 eixos estratégicos de atuação, prevê R$ 32,9 milhões para ações municipais de mitigação e preparação, R$ 38,4 milhões para um Centro Estadual de Logística Humanitária e uma ampla estrutura de monitoramento, alertas, diagnósticos e coordenação regional.

Mas, politicamente, o principal significado do programa é outro. Ele funciona como um serviço público de combate ao negacionismo climático.

O governo está dizendo, em linguagem institucional, que leva a sério a possibilidade de um El Niño de grande intensidade entre 2026 e 2027. E está dizendo também que os municípios precisam fazer o mesmo.

A apresentação divulgada pelo Estado mostra um cenário que merece atenção. Os modelos climáticos apontam probabilidade superior a 95% de configuração do El Niño já nos próximos meses e indicam que o período de maior influência deverá ocorrer entre outubro de 2026 e janeiro de 2027. Em alguns cenários, a categoria “muito forte” aparece como a mais provável durante o pico do fenômeno.

É exatamente o tipo de informação que, depois da tragédia de 2024, não pode mais ser tratada como curiosidade meteorológica. Virou questão de segurança pública.

Há um aspecto importante no discurso do governo que merece reconhecimento: o Rio Grande do Sul de 2026 não é o Rio Grande do Sul de maio de 2024.

A Defesa Civil foi ampliada. Foram instaladas 129 estações hidrometeorológicas. Três novos radares estão em implantação. Existe modelagem hidrodinâmica permanente das bacias gaúchas. Foram produzidas manchas de inundação para municípios prioritários. Há monitoramento contínuo por hidrólogos e um conjunto de diagnósticos técnicos que simplesmente não existia antes da enchente.

O próprio programa se apoia nessa estrutura. Os municípios receberam diagnósticos de capacidade operacional, orientações para atualização dos planos de contingência e análises de suscetibilidade e vulnerabilidade que identificam áreas de maior risco.

Tudo isso é relevante. Mas há uma diferença entre estar mais preparado e estar protegido. E essa diferença aparece justamente na Região Metropolitana. Porque a principal obra estruturante de resiliência climática da região continua incompleta.

Há algumas semanas, ao analisar as discussões sobre os impactos das obras de proteção do Aeroporto Salgado Filho, escrevi que não existe segurança plena enquanto o sistema metropolitano de proteção contra cheias não estiver integralmente conectado.

Continuo alertando exatamente para a mesma coisa. A água não respeita fronteiras municipais. A água não sabe onde termina Porto Alegre e começa Cachoeirinha ou Canoas. A água não vota. A água encontra seu caminho.

Foi justamente essa lógica que apareceu na discussão sobre o que chamei de ‘bacia das almas’ de Cachoeirinha. O temor da população nunca foi apenas uma obra específica. Era uma pergunta maior: se cada município ergue sua barreira isoladamente, para onde a água irá?

O novo programa do governo não responde definitivamente essa pergunta. Mas reconhece que ela existe. E talvez isso seja seu maior mérito.

Entre os 25 municípios considerados prioritários pela Defesa Civil estão Cachoeirinha, Gravataí e Canoas. As três cidades receberam análises técnicas individualizadas de vulnerabilidade e suscetibilidade.

No caso de Cachoeirinha, o simbolismo é evidente. Nos últimos dias, vereadores, lideranças comunitárias e integrantes do governo municipal voltaram a cobrar avanços no sistema de diques e demonstraram preocupação com a lentidão das obras estruturantes.

A apreensão não é gratuita. Movimentos locais vêm alertando que a cidade ainda não enxerga, no terreno, a mesma velocidade de execução observada em outros pontos da região.

Quando o Estado inclui Cachoeirinha entre os municípios prioritários, está implicitamente reconhecendo essa vulnerabilidade.

Não significa que uma nova tragédia acontecerá. Mas significa que o risco continua merecendo atenção especial.

Canoas como exemplo — incompleto, mas exemplo

A apresentação do governo trouxe um contraste interessante. Enquanto Cachoeirinha aparece como área prioritária de monitoramento e preparação, Canoas foi usada como exemplo de obras estruturantes em andamento.

Segundo os dados apresentados, o município concentra mais de R$ 213 milhões em investimentos em diques, casas de bombas e sistemas de proteção. O Dique Mathias Velho e o Dique Rio Branco aparecem com cerca de 50% de execução e previsão de conclusão ainda em 2026.

É exatamente aquilo que observei recentemente ao acompanhar as visitas técnicas dos vereadores canoenses. Pela primeira vez desde a enchente, a reconstrução começa a sair dos relatórios e aparecer em concreto.

Isso não significa que Canoas esteja segura. Significa apenas que hoje ela está mais próxima da segurança do que estava há dois anos.

São coisas diferentes.

Gravataí ocupa uma posição peculiar nesse debate. Durante a enchente histórica de 2024, tornou-se uma espécie de ilha na Região Metropolitana. Enquanto cidades vizinhas enfrentavam inundações catastróficas, os impactos locais foram menores.

Mas isso não transforma o município em território imune.

A própria seleção de Gravataí entre os municípios prioritários demonstra que a Defesa Civil considera relevantes os riscos associados tanto à hidrologia da Bacia do Gravataí quanto ao histórico recente de tempestades severas que atingiram a cidade nos anos anteriores.

E há outra lição importante.

Como escrevi ao analisar o debate sobre desassoreamento, soluções simplistas costumam parecer mais atraentes justamente quando o medo aumenta.

Por isso chama atenção que o Prepara RS aposte pesadamente em monitoramento, modelagem hidrológica, diagnóstico técnico e inteligência situacional.

É um programa que parte do princípio correto: a física continua valendo mesmo em tempos eleitorais.

Ao fim, talvez o maior erro seja interpretar o lançamento do programa como garantia de que o Rio Grande do Sul está protegido. Não está. Nem o governo diz isso.

O que o Prepara RS demonstra é que o Estado está tentando não ser surpreendido novamente.

Existe uma diferença enorme entre as duas coisas. Os radares, diagnósticos e planos de contingência ajudam. O novo centro logístico e os R$ 32,9 milhões para preparação municipal também — apesar de, para efeitos de comparação, um dique custar mais de R$ 100 milhões.

Mas nenhuma dessas medidas substitui a conclusão das grandes obras de proteção contra cheias. E é justamente aí que surge a principal contradição do momento.

O governo está certo em se preparar para um possível Super El Niño. Mas o próprio lançamento do programa reforça uma realidade incômoda: quando o fenômeno atingir seu pico, o grande sistema metropolitano de proteção ainda estará em construção.

Por isso, mais do que uma demonstração de confiança, o Prepara RS deve ser lido como um alerta. Porque depois de 2024 ninguém mais pode alegar surpresa.

A água continua encontrando seu caminho. A pergunta é se as obras conseguirão encontrá-lo antes dela.


LEIA TAMBÉM

O aeroporto será salvo sem alagar Cachoeirinha? Novo estudo diz que sim — os sete milímetros e a ‘bacia das almas’

Vereadores foram ver o dique. E o governo tinha o que mostrar em Canoas

O populismo da enchente: por que o clamor para “desassorear tudo” desafia a ciência no RS — alerta a um gravataiense

Participe de nossos canais e assine nossa NewsLetter

Facebook
WhatsApp
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Conteúdo relacionado

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Receba nossa News

Publicidade