Antes, o contexto do apelido. Alcunhei após Dilamar Soares (Podemos), o Dila, vencer uma improvável eleição para a presidência da Câmara de Gravataí. É de Millôr o verbete: “Diante do herói incômodo só resta um recurso — fuzilá-lo e erguer-lhe um monumento”.
Após os fuzilamentos do passado, Dila resta frente ao segundo monumento, em 2026: assume quarta-feira como prefeito interino nas férias de Luiz Zaffalon (PSD). Aos 29 anos, Hiago Pacheco (PP) comanda o Legislativo — o mais jovem da história da aldeia.
A cerimônia simbólica foi realizada nesta sexta-feira, no auditório da Prefeitura.
Diante da ausência do vice-prefeito Dr. Levi Melo (Podemos), afastado por questões médicas, cabe ao presidente do Legislativo ocupar o posto. Não ocorria no município há nove anos, desde que o falecido Nadir Rocha esteve à frente da Prefeitura.
Zaffa cometeu seu habitual ‘sinceridídio’ ao falar sobre o peso da caneta.
– Gravataí é a quarta economia do Estado. Não é tarefa fácil estar como prefeito. Quando está tudo ótimo aparecem os pais e mães das obras; quando está ruim, a culpa é do prefeito. Mas sei que o vereador Dilamar tem eficácia e vai cumprir a função com maestria – afirmou.
Dila, que construiu a reputação de “herói incômodo” no Parlamento — um político que já foi líder em guerras políticas, que entregou cargos por lealdade, que votou contra aliados quando entendeu necessário, que criou um dos melhores projetos da história do parlamento, a ‘Lei Dila’, que troca dívidas de empresas por obras, e que tem coragem de apanhar nas redes para votar projetos impopulares e bancar a promessa feita aos vereadores de criar cargos e regulamentar diárias para viagens — sabe o que o espera.
E não romantiza.
– Assumo pela legislação e em função da doença do Dr. Levi, que deveria estar aqui. Zaffa e Levi venceram duas eleições juntos, administram juntos, têm divergências e convergências juntos – disse.
– O mais importante é que Dr. Levi se recupere. Foi fundamental nas duas eleições. Isso aumenta muito minha responsabilidade nestes 10 dias. É extremamente difícil substituir Zaffa, pela sua capacidade de gestão e liderança. Mais responsabilidade ainda substituir o Levi – acrescentou.
Maurício Dziedrick, ex-deputado federal e responsável pela montagem do Podemos gaúcho, também prestigiou a posse.


A bênção do ‘Silvio Santos gaúcho’
Horas antes da posse simbólica, Dila almoçou na casa de Sérgio Zambiasi, estrela do Podemos no RS.
Ao lado do vereador Paulinho da Farmácia — amigo do ex-senador — e do radialista Gugu Streit, recebeu a bênção do ‘Silvio Santos gaúcho’.
Zambiasi ligou para Zaffa e, com a sedução típica de comunicador, apresentou um programa de elogios ao novo prefeito interino.
No auditório, além do secretariado e de Hiago, estavam também os vereadores Alex Peixe (PSDB), Bombeiro Batista (Republicanos) e Roger Correa (PP), além de servidores do Legislativo.
O servidor Júlio César Wurlitzer, com 51 anos de atuação pública, foi homenageado e fez a leitura dos termos oficiais da transmissão.
Dila quer levar para o Paço o estilo que aplica na Câmara: planejamento, governança e, caso necessário, o enfrentamento de temas espinhosos.
Ao citar a presença da esposa, Alexandra, professora, fez a autocrítica doméstica:
– Em matérias impopulares para o funcionalismo, às vezes tenho que dormir no sofá. Mas o prefeito e os vereadores precisam pensar no conjunto do município. Por vezes há reformas necessárias.
– Temos a missão de entregar a Prefeitura e a cidade como recebemos do prefeito. É grande responsabilidade – concluiu.
No breve comentário que fez após a fala de Zaffa sobre as dores do cargo, Dila foi direto: quando a coisa aperta, poucos ficam juntos.
Ao fim, 10 dias em regra é pouco para se tornar alvo de fuzilamento. Mais provável Dila apenas curta o monumento. O segundo do ano, ao ‘herói incômodo’.
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