O PSB fez o que prometera. Em congresso realizado no início da noite deste domingo, confirmou por unanimidade a chapa pura do ex-prefeito José Stédile à Prefeitura de Cachoeirinha, tendo como vice a advogada Letícia Gomes, filha do ex-vice-prefeito Volnei Gomes.
Mas a história não termina na ata.
Termina — ou pode mudar — na quarta-feira, prazo final para homologação das candidaturas para a eleição suplementar de 12 de abril.
E, até lá, Stédile segue conversando com o grupo do prefeito cassado Cristian Wasem (MDB), que lançou Claudine Silveira, vereadora e esposa do vice-prefeito cassado Delegado João Paulo (PP), como candidata.
Chapa pura no papel. Unidade ainda em negociação nos bastidores.
Na manifestação divulgada após o congresso, Stédile adotou o tom que já vinha ensaiando: estabilidade.
“Estamos colocando novamente nosso nome, nossa experiência e nossa energia à disposição da população de Cachoeirinha”, postou, em nota nas redes sociais
Reforçou o legado: “Nosso grupo tem um legado de serviços prestados à cidade, com ações que promoveram o desenvolvimento econômico e social, além de obras que transformaram o município.”
E deixou explícita a vírgula política mais importante da nota: “Seguimos abertos às demais forças políticas que queiram somar nesse sentido.”
Aberto. A palavra é menos retórica do que parece.
Isolado — mas nem tanto
Como escrevi em “Ficha limpa” e “estabilidade”: isolado, Stédile vai à eleição suplementar apostando nos ‘cabeças brancas’ de Cachoeirinha, a candidatura nasce formalmente isolada.
O PT fechou chapa pura com Tairone. O PSOL também lançou candidatura própria. O grupo de Cristian confirmou Claudine. E a prefeita interina Jussara Caçapava (Avante) governa com nove partidos e 12 dos 17 vereadores.
No papel, cinco candidaturas. Na prática, a matemática ainda pode mudar.
O próprio PP deixou aberta a possibilidade de composição. O Delegado João Paulo Martins admitiu diálogo. Mas o impasse é evidente: o grupo de Cristian não abre mão de Claudine cabeça de chapa. E Stédile não entra para ser coadjuvante.
É um cabo de guerra de vaidades, legado e cálculo eleitoral.
Stédile vende previsibilidade num ambiente que virou laboratório político.
Dois mandatos como prefeito. Dois como deputado federal. Secretário estadual de Obras. Atual diretor da Fase. Sem condenações.
A marca trabalhada internamente é clara: “Ficha Limpa”.
Entre o discurso espiritualizado de Cristian, o pragmatismo de Jussara e as aventuras de PT e PSOL, Stédile tenta ocupar o espaço do ‘cabeça branca’.
Entre o conservador desconfiado e o progressista ressentido, busca o que chemei ‘extremo centrismo’.
Mas há passivos.
Foi o ‘Grande Eleitor’ de Miki. Carrega o sobrenome Stédile — inevitavelmente associado ao irmão João Pedro. Votou pelo impeachment de Dilma.
Fica entre o MST e o impeachment.
Entre polos que desconfiam.
A política líquida
A quarta-feira é o limite. Até lá, pode haver: manutenção das cinco candidaturas; composição entre PSB e PP; ou, no limite, uma desistência estratégica.
O áudio de Stédiule que circulou nos bastidores — “a Jussara deve estar rindo de nós” — não foi apenas desabafo. Foi diagnóstico.
Enquanto parte da oposição negocia, Jussara consolidou maioria de pragmatismo implacável. Enquanto a centro-esquerda se fragmenta, o centro-direita tenta se recompor.
Stédile formalizou candidatura. Mas manteve a porta entreaberta. Se será cabeça isolada ou peça de uma composição maior, aguardemos. Na política suplementar de Cachoeirinha, nada é definitivo até quarta-feira.
E, às vezes, nem depois.
Como sempre lembra intelectual amigo, citando Marx e Engels, no Manifesto Comunista (1848), em idéia processada depois por Bauman e a “Modernidade Líquida”, “Tudo que era sólido se desmancha no ar”.
E, sabemos todos, algo de diferente há na água que bebe a política de Cachoeirinha.
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