Não foi uma aparição protocolar. Nem casual. A política é feita de símbolos. E é percepção.
A presença do ex-prefeito cassado de Cachoeirinha, Cristian Wasem (MDB, ainda), no ato de filiação do ex-vereador Adriano Agitasamba ao União Brasil Canoas, na noite desta segunda-feira (23), na Câmara Municipal de Canoas, ultrapassa o campo da especulação e entra no território da evidência política.
Cristian falou. E falou como quem já está dentro.
Ao discursar, mencionou o fortalecimento regional do União Brasil e a consolidação de lideranças com inserção comunitária e capacidade de articulação, conforme testemunhou o jornalista Rafael Trajano, do Vale Notícia — exatamente os termos que vêm sendo usados pelo partido desde a intervenção no diretório de Cachoeirinha.
Não é detalhe.
Na quinta-feira passada (19), o diretório estadual do União Brasil no Rio Grande do Sul deliberou, por unanimidade, pela intervenção no diretório municipal de Cachoeirinha.
A comissão interventora passou a ser presidida pelo deputado federal Luiz Carlos Busato — o mesmo que, no ato em Canoas, onde foi prefeito, exaltou a importância do fortalecimento partidário com vistas a 2026 e 2028.
Oficialmente, a intervenção foi justificada como medida para reorganização interna e alinhamento estratégico.
Politicamente, ocorreu dias após o Seguinte: revelar que Fabi Medeiros, esposa de Cristian, pode se filiar ao UB para disputar vaga na Assembleia Legislativa.
O partido negou confirmar novas filiações. Mas também não negou.
Agora, Cristian aparece em evento oficial do UB, compõe mesa, posa para foto sorridente e fala em consolidação regional.
Não é um gesto qualquer. Inclusive, pegou mal no MDB de Cachoeirinha e na direção estadual.
Havia, entre emedebistas locais, uma parca esperança de intervenção da direção estadual na decisão do partido, tirada na convenção de domingo, de apoiar a prefeita interina Jussara Caçapava (Avante) na eleição suplementar de 12 de abril.
Dirigente do MDB no RS, o deputado estadual Juvir Costela participou da convenção, se expôs, chamou de traidores os quatro vereadores que votaram a favor do impeachment e foi embora entre vaias e aplausos.
O resultado da convenção foi de 29 a 24 pró-Jussara.
Recebeu como agradecimento este movimento de Cristian — ao menos para os emedebistas de Cachoeirinha, já inscrito entre os Grandes Lances dos Piores Momentos.
A filiação que agita Canoas e Cachoeirinha
O evento marcou a filiação do ex-vereador Adriano Agitasamba, quarto candidato mais votado na última eleição municipal, com 3.284 votos. Só não é vereador por falta de votos na nominata do Avante, partido ao qual pertencia.
É popular. Liderança forte.
Na mesa, além de Busato, estavam o vice-prefeito de Canoas, Rodrigo Busato, e lideranças locais.
E Cristian.
Em sua fala, o ex-prefeito de Cachoeirinha avaliou que o fortalecimento do União Brasil em Canoas dialoga com um projeto regional mais amplo. Disse que o momento é de consolidar lideranças com base comunitária e capacidade de articulação para os próximos anos.
O discurso se encaixa milimetricamente no movimento que vem sendo desenhado desde o início de fevereiro: reorganização do UB em Cachoeirinha, federação com o PP, apoio cruzado e construção de palanque.
O cenário parece óbvio: Cristian, mesmo inelegível por oito anos, tenta se posicionar como ‘Grande Eleitor’ na eleição suplementar de Cachoeirinha, apoiando a candidatura a prefeita da vereadora Claudine Silveira (PP), esposa de seu vice-prefeito também cassado Delegado João Paulo Martins (PP); Fabi Medeiros pode disputar uma cadeira na Assembleia pelo União Brasil; e Busato consolida palanque regional para sua reeleição à Câmara Federal.
A federação entre PP e União Brasil conecta os movimentos.
A intervenção em Cachoeirinha elimina resistências locais.
E a presença pública de Cristian em ato partidário deixa de ser uma hipótese e passa a funcionar como mensagem.
Não é filiação formal. Ainda.
Mas é sinal político inequívoco.
Até aqui, Cristian não confirmou oficialmente a troca do MDB pelo União Brasil.
Mas a sequência de fatos — articulações reveladas, crise interna no UB municipal, intervenção estadual e agora presença ativa em evento da sigla — constrói uma narrativa que dispensa declaração formal.
A política raramente anuncia antes de agir.
Às vezes, ela apenas aparece no palco.
E fala como se já estivesse em casa.
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