RAFAEL MARTINELLI

O “acabou a brincadeira” dito por Jussara e as brincadeiras de Cristian: a guerra de narrativas em Cachoeirinha

Jussara em inauguração de comitê na zona norte.

A eleição suplementar de 12 de abril em Cachoeirinha não é apenas disputa por votos. É disputa por sentido.

De um lado, a prefeita interina JussaraCaçapava (Avante) repete como mantra: “Acabou a brincadeira. Meu nome é trabalho”.

Do outro, o prefeito cassado Cristian Wasem (União Brasil) mantém o estilo performático que marcou sua gestão: sorrisos, bolas rolando, vídeos coreografados, metáforas esportivas e agora uma “batalha espiritual”.

Entre trabalho e brincadeira, construiu-se a principal guerra de narrativas da campanha.

E ela não é casual. É construção de contraste.

Na largada da campanha eleitoral, Jussara abriu o comitê central — no mesmo endereço onde funcionou o QG de Cristian em 2024, na Flores da Cunha — como quem ocupa território simbólico.

Discurso firme. Pouco sorriso. Ênfase na herança recebida:

– Peguei Natal e Ano Novo de mato alto e lixo acumulado. Meu primeiro decreto foi sobre o lixo.

O vice, Mano do Parque (PL), segue a mesma trilha. Cobrança. Tom severo. Repetição da ideia de ruptura:

– Chega de ilusão e mentira.

A mensagem é óbvia: o governo anterior era espetáculo; este faz gestão.

A coligação ajuda a sustentar a narrativa. Nove partidos. Doze vereadores. Entre eles, o MDB — partido do qual Cristian se desfiliou nesta segunda-feira — que, por 29 a 24, decidiu apoiar Jussara.

Se Cristian chama o impeachment de “golpe”, sofreu um dentro de casa. O MDB restou um ‘partido-partido’.

No palco da convenção de Jussara, o roteiro já tinha sido pedagógico: cada vereador citado, cada articulação lembrada, cada gesto de lealdade exibido. Política como matemática de maioria.

A festa teve escola de samba, telão e discurso emocional. Mas a narrativa era pragmática: não é ideologia, é governabilidade.

O ‘Grande Eleitor’ e a bola rolando

Cristian, impedido de concorrer, tenta ocupar outro papel: o de ‘Grande Eleitor’.

Na convenção do PP, lançou Claudine Silveira como candidata e confirmou o pastor Marco Aurélio Albernaz como vice. O discurso foi menos administrativo e mais moral.

Falou em Deus. Em “articulações diabólicas”. Em bem contra o mal.

– Tentam negar que é o bem contra o mal. Se não é o bem contra o mal, o que é então?

A eleição deixou de ser apenas administrativa. Tornou-se espiritual.

Claudine sustenta a tese da “reparação democrática”:

– Vamos fazer justiça pelo voto.

O Delegado João Paulo Martins, vice-prefeito cassado e seu marido, fala em traição.

Cristian fala em consciência tranquila.

E, na largada da campanha eleitoral, encerrou vídeo chutando a bola para o alto:

– Pra cima, Cachoeirinha.

Se Jussara diz que acabou a brincadeira, Cristian insiste na linguagem lúdica que marcou seus mandatos: skate, monociclo, bolinha de tênis nas ruas asfaltadas — agora a bola de futebol passando para os sucessores.

Não é descuido estético. É identidade política.

Jussara aposta na imagem da gestora que organiza a casa.

Nos discursos prometeu fim do teleagendamento na saúde, mais médicos nos postos e tolerância zero com lixo e mato alto. Repete que governa com maioria parlamentar. Que reuniu quase toda a Câmara. Que tem base ampla.

É narrativa de estabilidade.

Cristian aposta na emoção.

Fala de gente que quer ir embora da cidade. Fala de injustiça. Fala de Deus como árbitro final.

É narrativa de mobilização. Agora no União Brasil de Luiz Carlos Busato.

No meio, o áudio de José Stédile, ex-prefeito que desistiu de concorrer por falta de unidade da oposição, já alertou:

– A Jussara deve estar rindo de nós.

A frase virou síntese involuntária do momento.

Cristian rola a bola para Claudine, em vídeo publicado na largada da campanha eleitoral

O Deus eleitor

A disputa não é apenas administrativa.

É sobre qual memória recente vai prevalecer: a de um governo alegre, midiático, que diz ter sido interrompido injustamente; ou a de uma gestão que se apresenta como corretiva, pragmática e majoritária.

Cristian testa se ainda é capaz de transferir votos. Aposta seu legado nas urnas. Jussara testa se maioria parlamentar se converte em maioria popular.

Claudine representa a reparação.

Mano simboliza a ala conservadora incorporada ao bloco governista.

O MDB dividido expõe fissuras internas.

A eleição suplementar — como é característica das eleições modernas de rede social — virou laboratório de narrativa.

No fim, não é apenas sobre quem governa a cidade.

É sobre quem convence que governa melhor — sem brincar.

O Deus das Urnas, o eleitor, vai decidir.


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