Como sempre escrevo, a física não lê boletim oficial e a água não vota. Passados dois anos do trauma de maio de 2024, a Região Metropolitana de Porto Alegre segue reaprendendo, a um custo altíssimo, que intervenções hidráulicas em um canto da bacia ecoam inevitavelmente nos municípios vizinhos. Foi exatamente sob esse alerta — que já tratei em uma série de artigos — que o Seminário sobre os Danos Causados pelas Enchentes, promovido pela Comissão Externa da Câmara dos Deputados no Centro das Indústrias de Cachoeirinha (CIC), já apresentou uma medida prática, nesta segunda-feira.
A Prefeitura de Cachoeirinha anunciou que contratará um estudo técnico independente para avaliar os reais impactos das obras do sistema de proteção do Aeroporto Internacional Salgado Filho sobre o território do município.
A decisão da prefeita Jussara é um gesto político e técnico de enorme simbolismo. Ela se recusa a aceitar a passividade — e garante um habeas corpus preventivo para potenciais responsabilizações futuras.
– Nossa responsabilidade é defender os interesses de Cachoeirinha. Vamos acompanhar tecnicamente cada intervenção e ter um estudo próprio, para que nenhuma decisão seja tomada sem que o município tenha segurança sobre seus impactos – disse a prefeita.
Essa declaração corta diretamente o manto de tranquilidade que o Governo do Estado e técnicos tentaram estender sobre o auditório. Durante o evento, especialistas estaduais voltaram a assegurar que os estudos hidráulicos e hidrológicos indicam que as intervenções no entorno do aeroporto não causarão prejuízos a Cachoeirinha.
A argumentação oficial se fiou na tese recente — repercutida a partir de levantamentos encomendados pela Prefeitura de Porto Alegre e analisados pelo Dmae — de que a elevação projetada na Bacia do Rio Gravataí seria de meros sete milímetros (e de até 5,5 milímetros na área do dique do Arroio Feijó). Didaticamente, a engenharia tratou esse número como “pouquíssimos pingos d’água numa bacia gigantesca de 2 mil quilômetros quadrados”.
Ocorre que, como defendi quando tratei do ‘populismo da enchente’, a ciência precisa prevalecer sobre slogans. Se a modelagem indica milímetros, excelente. Mas a régua pós-2024 mudou radicalmente. A população que ficou ilhada e viu bairros inteiros debaixo d’água perdeu a capacidade de nutrir uma confiança cega em promessas institucionais. Quando o Ministério Público classifica o impacto como “não relevante”, a cidade traumatizada pergunta: qual é, afinal, a medida exata do não relevante quando a água volta a subir?
É por isso que a cobrança que começou na ponta — mobilizada por nomes de diferentes lados da ferradura ideológica, como o vice-prefeito Mano do Parque (PL) e o vereador Leo da Costa (PT) — exigia um desfecho institucional firme. Ao contratar uma auditoria técnica própria, Cachoeirinha deixa de ser mera espectadora e passa a arbitrar o seu próprio destino. Como citou o escritor moçambicano José Luandino Vieira: “A verdade e a mentira não podem ser separadas enquanto não soubermos tudo”.
O seminário no CIC também serviu para expor feridas administrativas herdadas pela nova gestão. O secretário estadual da Reconstrução Gaúcha, Pedro Capeluppi, afirmou que o Governo do Estado aguardou por cerca de dois anos para que o município apresentasse projetos e ações técnicas capazes de destravar as obras estruturantes de combate às cheias. Segundo Capeluppi, a engrenagem só começou a girar com a posse de Jussara, permitindo que a cidade finalmente passasse a articular recursos do FUNRIGS e do Estado.
A fotografia do passado recente pintada durante o evento pelo vice-prefeito Mano do Parque e pelo assessor especial da prefeita, Cláudio Ávila, é de que a atual administração herdou uma prefeitura desprovida de projetos estruturantes de prevenção a enchentes e sem capacidade técnica para captar verbas estaduais e federais, acumulando problemas graves até na coleta de lixo.
O ápice refletiu-se na perda de cerca de R$ 600 mil em recursos repassados pela Defesa Civil estadual. Pela alegada falta de projetos e de prestação de contas no prazo pela gestão anterior — do ex-prefeito Cristian Wasem —, a cidade foi empurrada para a beira do Cadin, o indigesto ‘SPC das prefeituras’. Dinheiro que poderia ter financiado hidrojateamento, limpeza urbana e contratação de serviços emergenciais pós-catástrofe acabou paralisado pela burocracia e pela inoperância.
Os representantes do governo municipal sustentaram que a determinação de Jussara em contratar equipes de engenharia para criar anteprojetos, adotar medidas mitigatórias emergenciais e preparar planos de resposta realinha Cachoeirinha com as exigências do tempo presente.
Essa postura converge diretamente com o debate mais amplo que temos travado sobre a necessidade de políticas de Estado permanentes. Soluções fáceis como o ‘populismo da retroescavadeira’ ou o bordão do ‘desassorear tudo’ não funcionam em rios de baixíssimo desnível como o Gravataí, que exige inteligência hidrodinâmica, proteção de várzeas e ciência. Iniciativas em curso na Assembleia Legislativa — como a criação do Instituto das Águas e da Autoridade Metropolitana, o que também analisei recentemente — apontam exatamente para a necessidade de gerenciar o sistema de proteção de forma integrada, superando divisões territoriais.
Ao fim, com o fantasma de novos episódios do ‘Super El Niño’ no horizonte e a urgência trazida pelos diagnósticos do plano Prepara RS, a Região Metropolitana não tem mais margem para erros paroquiais.
O anúncio feito por Jussara no CIC parece provar que Cachoeirinha cansou de apenas reagir às tragédias. Exigir dados independentes sobre o Salgado Filho e construir projetos consistentes não é confrontar o Estado; é exercer com responsabilidade o dever institucional de proteger vidas e patrimônios.
Cachoeirinha não pode restar em uma ‘bacia das almas’, cheia com a água que escoa dos vizinhos.
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