entrevista

O médico que aconselha Marco Alba na crise do coronavírus

Médico Marcelo Leone, em foto que ilustra a capa de seu perfil no Facebook

Era 2017 quando o ginecologista Marcelo Leone, 57 anos, anos, pediu licença interesse da Prefeitura de Gravataí para embarcar em missão humanitária para tríplice fronteira entre Etiópia, Quênia e Somália. Só ao desembarcar na paupérrima Dolo Ado, o friburguense que mora no Rio Grande do Sul desde os 14 anos e foi o primeiro da família a se formar em medicina, na UFRGS, percebeu que era único médico da equipe de 300 voluntários do Médicos Sem Fronteiras, para atender  300 mil pessoas, população de mais de uma Gravataí.

– É inimaginável a situação daquelas pessoas, na miséria e sob o jugo se senhores da guerra, onde além das bombas o estupro é uma arma. Por três meses vivi aquilo e percebi que ajudava lá, mas também tinha uma missão aqui – contou, embargando a voz, em uma entrevista de mais de uma hora ao Seguinte:, na noite desta quinta, o médico que tem 27 anos de SUS em Gravataí, trabalha com a ecografia que ele mesmo implantou como secretário da Saúde nos anos 90, e tem 60 mil fichas de clientes em seu consultório na Ary Tubbs, Centro.

Hoje, a missão de Marcelo Leone tem fronteiras locais: é aconselhar o prefeito em meio à maior pandemia da humanidade na história moderna. Adepto ao distanciamento social como emergência necessária para ‘achatar a curva’ de contágio da COVID-19, o médico é um dos profissionais da saúde que está mais próximo do convívio, e mais tem sido ouvido por Marco Alba.

– O prefeito é um gigante na condução dessa crise. Gravataí tem o privilégio de, no maior desafio de sua história, ter uma forma sólida e correta de governar – observa o caçula de três irmão, filhos de Antônia Thereza e Valter de Souza Lima, companheiro de Daiane Ribeiro e padrasto de Victor, 10, numa conversa que também envolveu a política local: ele é um dos mais recentes filiados ao MDB e, como já brincam no meio político, um ‘Mandetta’ em ascensão em um governo que ainda não definiu candidatos a prefeito e vice para a eleição 2020.

– Estou com pessoas que acredito, para ajudar nas políticas de saúde da minha comunidade. Mas não me filei com nenhuma condição de concorrer – diz o morador da Paragem Verdes Campos.

Pelo WhatsApp, Marco Alba respondeu a pedido do Seguinte: por um comentário sobre Marcelo Leone:

– É um médico dedicado, um ser humano exemplar totalmente inserido na vida de nossa comunidade. O respeito é recíproco.

Siga os principais trechos da entrevista.

 

Seguinte: – És um dos médicos mais queridos de Gravataí pelo envolvimento com os pacientes do SUS. O que diz ao povo quando perguntam sobre a pandemia: “e aí, doutor?”

Marcelo Leone – Adivinhaste. Tenho um trabalho voluntário de 15 anos junto à Liga de Combate ao Câncer e, logo no início do isolamento social, pensando em quem poderia estar passando fome, fui levar nos loteamentos populares Princesa e Breno Garcia algumas cestas básicas que arrecadamos. A primeira pergunta era “e agora, doutor?”. A incerteza e a falta de informação não são exclusivas do povão. Nem especialistas tem a certeza do que está acontecendo. Tenho lido as últimas publicações sobre a pandemia e nunca tinha visto documentos científicos alertarem: tudo que está neste estudo pode ser modificado logo adiante. A orientação que passo é sobre a higiene e evitar aglomerações, não fazer festa e, quem puder, que fique em casa. O vírus não enxerga classe social. O distanciamento social é uma medida incômoda, tanto para a economia, quanto para a o dia a dia das pessoas, mas é urgente e necessária. E está dando certo, os números mostram e, no Brasil, até agora fomos ágeis ao aprender com a tragédia mundial.

 

Seguinte: No artigo Como Gravataí e Cachoeirinha vão sair do distanciamento social; conheça os estudos, apresentamos o modelo do governo do RS para a retomada das atividades econômicas, o ‘distanciamento controlado’. Já analisaste as fórmulas? Há como ter um plano seguro sem testagem, o que não vai acontecer a curto e, talvez, médio prazo?

Leone – Primeiro é preciso observar que nenhum país tinha sistema de saúde preparado para uma coisa dessas. E o nosso SUS está dando exemplo. Parte da tragédia nos EUA é por não ter um sistema como o nosso, que faz consulta, dá vacina, interna e trata o pobre.

 

Seguinte: 30% dos norte-americanos tem como maior dívida o tratamento de saúde próprio ou de algum familiar…

Leone – Parte da crise de 2008 tem origem nisso…

 

Seguinte: Hipoteca sobre hipoteca para pagar o tratamento médico…

Leone – Exato. Então a pandemia mostra a força, e a necessidade do SUS. São muitos os problemas, mas, dentro da velocidade da crise, entendo como rápidas as respostas dos governos. Como estou na ponta do atendimento, sou um peão, não estou na gestão. Então, não gostaria de dar um diagnóstico público sobre o plano de retomada econômica, no mundo, no Brasil ou em Gravataí. O que posso dizer é que, quando fui convidado para uma reunião no Sindilojas, onde estava grupo que tinha feito uma carreata e programava uma cavalgada pedindo a abertura do comércio, ao ser consultado, disse: como médico, recomendo que não façam. Usemos a inteligência para buscar alternativas, o comércio virtual, ou em preparar um extremo cuidado sanitário para uma reabertura. Acertaste ao escrever que a vida normal não volta dia 1º de maio, que estamos no “fim do início” da pandemia. É uma ilusão marcar uma data para voltarmos à vida que tínhamos em 2019, em janeiro, fevereiro. A não ser que Deus seja gaúcho! Mas, infelizmente, não é o que mostra a trajetória do vírus em todo lugar do planeta.

 

Seguinte: – É correto dizer que sem testagem não teremos uma retomada segura?

Leone – Sim, podemos flexibilizar e logo adiante ter que retomar as quarentenas. É notória a subnotificação. Estão corretos os cálculos que apresentaste nos teus últimos artigos (Gravataí compra sacos para corpos; gripezinha, vodca e a impronunciável COVID 19 e É moralmente homicida pressão pela volta da ’vida normal’; o que fará Gravataí?). Mas a solução não passa pela vontade do gestor. Seja em Gravataí, ou qualquer lugar do Brasil, não há kits de testes acessíveis em número suficiente. A Espanha, por exemplo, devolveu milhares de exames comprados da China porque davam o ‘falso negativo’. Os testes que estão no mercado tem 80% de sensibilidade. Ao menos não é o ‘falso positivo’.

 

Seguinte: Insisto na segurança para reabertura do comércio: o reitor da Universidade de Pelotas, que faz pesquisa para o governo do RS, e agora municia o governo federal, alerta para os riscos da ‘volta ao normal’ dia 1º. Não há um plano seguro, então?

Leone – A primeira testagem conduzida pela Universidade de Pelotas mostra que poucos gaúchos tiveram contato com o vírus, tem anticorpos. Então, o potencial de progressão do contágio é uma realidade. Sem exame o que temos é palpite. Hoje especialistas ou leigos arriscam acertar em algum momento. São tempos de achismo. Li que o governo federal anunciou a compra de 40 milhões de testes.

 

Seguinte: O ministro anterior anunciou 20 milhões, o atual dobrou, mas nenhum saiu do Twitter e contornou a praça do quiosque para chegar ao hospital Dom João Becker em Gravataí. Então, mais uma vez insisto, já que não teremos testes, é hora de reabrir o comércio em Gravataí?

Leone – Como era antes, não. É preciso criar um ambiente mais seguro contra contaminação. Distâncias seguras, funcionários com máscaras, álcool gel disponível, higiene nos banheiros, limpar toda hora as maçanetas e balcões com álcool 70%… É um mundo novo. Como provar roupas, por exemplo? Para que outra pessoa possa fazê-lo, seria preciso higienização com um calor de 60 graus. É uma espada sobre nossas cabeças por 12, 18 meses, ou mais, até que se tenha uma vacina. Não tenhamos a ilusão de que não pegaremos o vírus…

 

Seguinte: Estudo da Science projeta que 6 a cada 10 terráqueos terão contado com o vírus.

Leone – Sim, atualmente trabalhamos com um índice de 15% de pacientes com complicações, o que certamente baixaria para 1% com uma testagem em massa, já que testes hoje só são feitos em pacientes hospitalizados. A própria taxa de mortalidade, hoje em 6%, acredito cairia para menos de 1%. Ainda muito, mas a realidade.

 

Seguinte: A COVID-19 é uma ‘gripezinha’?

Leone – Não. Quem fica duas, três semanas intubado em uma UTI perde a capacidade pulmonar em uma média de 30%. O pulmão vira uma cicatriz. As sequelas impedirão muita gente de voltar ao trabalho. Não há comparação com a gripe H1N1. Além de infectar muito mais, o novo coronavírus não tem vacina e nem cura.

 

Seguinte: E a cloroquina? O Conselho Federal de Medicina decidiu hoje que não há evidência científica forte que comprove a eficácia da droga, mas permitiu o uso caso haja autorização do paciente.

Leone – Não há evidência científica que comprove que a cloroquina funcione. Em um pensamento lógico, se válido, já teria uso nos EUA, e não tem. Pode funcionar para uns, não para outros. Ainda é uma incógnita.

 

Seguinte: Ontem a revista IstoÉ trazia estudo de pesquisadores franceses mostrando que a nicotina poderia funcionar contra o SARS-CoV-2, já que fumantes eram menos atingidos que não fumantes. Qual a próxima 'simpatia'?

Leone – Eu também li, e como ex-fumante, não recomendo fumar (risos). É tempo de muita maluquice!

 

Seguinte: O vírus chega em um momento em que não só o Brasil, mas os EUA, a Europa, o mundo, politizam até doença…

Leone – A política hoje é virulenta! Mas o vírus não polariza, é pragmático, não escolhe ideologia, nem classe social. Infecta.

 

Seguinte: És um ‘outsider’ por nunca ter exercido mandato eletivo, mas és personagens de episódios históricos da política de Gravataí…

Leone – Sei que te referes ao impeachment da prefeita Rita Sanco… Concorri a vereador em 2004 e fui o nono mais votado, com 1,7 mil votos, mas minha coligação não atingiu o coeficiente eleitoral porque foi o único ano em que as vagas foram reduzidas de 21 para 14. Concorri pelo PCdoB. Tinha sido secretário da Saúde em 2000, quando Neio Lúcio Pereira se licenciou para concorrer à Prefeitura. Em 93 comecei a trabalhar no Hospital de Cachoeirinha e em contrato emergencial em Gravataí, onde em 95 passei em concurso e estou até hoje no SUS. Fui diretor da Secretaria da Saúde no primeiro governo de Daniel Bordignon, por indicação técnica, depois secretário, até a política me afastar. Podem ter achado que me puniram, mas me premiaram à época com o trabalho no posto de saúde da Morungava. Enfim, sou só gratidão a todos com quem trabalhei na vida pública. Entendo as pressões da política. Mas minha paixão, e sobre o que sei, é a saúde pública, e para ajudar a manter vivo o SUS estarei sempre à disposição, desde que acredite no projeto.

 

Seguinte: – E o que chamo golpeachment contra a prefeita Rita Sanco e o vice Cristiano Kingeski?

Leone – Essa é uma passagem chata. Estava afastado da política e na época me filiei ao PV, porque via no partido uma bandeira incontestável. Aí o advogado Cláudio Ávila, que chamas de ‘Dr. Golpeachment’, e era filiado ao partido, apresentou o impeachment. Perguntei os motivos. A explicação foi que a Câmara tinha aprovado uma operação de crédito irregular enviada pela Rita. Eu questionei: mas como os mesmos vereadores que aprovaram o contrato vão cassar a prefeita? Disseram-me que o impeachment era inegociável e eu, naquela reunião, pedi desfiliação e avisei que me colocaria ao lado da Rita. Para mim, foi o episódio mais triste da história política de Gravataí, conduzida por pessoas mal intencionadas.

 

Seguinte: Você foi envolvido no ‘caso da fita’, uma investigação que à época apelidei de ‘CPI do disse-que-disse’, em que, numa reunião no Hotel Intercity, teria testemunhado Daniel Bordignon oferecendo a Cláudio Ávila e ao PV cargos no governo para livrar Rita do impeachment.

Leone – Há coisa impublicáveis sobre aquele episódio… O que posso dizer é que aquilo me assustou muito. Até o início deste ano, quando o Cristiano Kingeski conversou comigo sobre voltar à política, estava enojado. Ter sido chamado a depor em uma CPI, parte de um impeachment sem nenhum fundamento, me fez achar que não podia confiar em mais ninguém na política.

 

Seguinte: Mas te filiaste ao MDB e estás apto a concorrer em 2020.

Leone – Não planejei nada para concorrer. Como gosto de colaborar com as questões da saúde, encontrei um caminho com Marco Alba e o MDB. Esse jeito de governar é o mesmo com o qual levo minha vida: não faço dívidas, não vivo de uma maneira inadequada à minha profissão, não gasto o que não tenho, não perco tempo com conspirações ou ideias não levam a lugar nenhum… Ainda cabeludo, fiz medicina para ser médico geral comunitário. Depois me apaixonei pela ginecologia e a obstetrícia. A saúde pública está no meu sangue.

 

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