RAFAEL MARTINELLI

Jussara Caçapava e Mano confirmam chapa com 9 partidos e 12 vereadores em Cachoeirinha; o samba da unidade — com MDB de Cristian & tudo

A convenção que confirmou Jussara Caçapava (Avante) candidata à reeleição, ao lado de Mano do Parque (PL), não foi apenas um rito partidário. Foi um espetáculo do pragmatismo implacável da política.

Telão. Escola de samba. Lotação completa. E o tamanho exato da coligação: apoio de 9 partidos e 12 dos 17 vereadores.

Dos Grandes Lances dos Piores Momentos, entre eles, o MDB do prefeito cassado Cristian Wasem. Horas antes, por 29 votos a 24, o partido decidiu apoiar Jussara.

Se Cristian chama o impeachment de “golpe”, sofreu um dentro de casa. Perdeu o próprio partido na eleição suplementar de 12 de abril.

Às vésperas do domingo final de convenções, a coligação de Jussara já reúne Avante, PL, MDB, Republicanos, Podemos, PSD, PDT, PSDB e Solidariedade.

A festa como mensagem

Jussara chegou ao lado de Mano, depois de participar da convenção do PL. Foram recebidos ao som da Imperatriz Dona Leopoldina e por crianças que gritavam: “Jussara, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver”.

A política, às vezes, se traduz em símbolos.

A montagem do evento teve cuidado cirúrgico para valorizar cada vereador que ajudou a construir o impeachment — e antes, a reeleição de Jussara como presidente da Câmara, movimento que a levou à Prefeitura.

Cada nome citado. Cada “sacrifício” lembrado. Foi pedagogia política.

– Nunca tinha visto articulação assim – disse seu assessor especial Cláudio Ávila, com a experiência de quem já foi protagonista de impeachment em Gravataí.

– Foi aula de política. Política que só se faz quando se tem lealdade e, o principal, palavra – disse, chamando ao palco dois filhos de Jussara, Ildo Jr. e Paulo Agliardi, o Tetê, os discretos articuladores políticos da cassação e da coligação.

– Jussara vai ser uma mãe para Cachoeirinha – disse, citando que a vereadora por 18 anos criou seis filhos após a viuvez precoce.

Estavam no palco vereadores que votaram diferente em momentos distintos.

Edison Cordeiro (Republicanos), que inicialmente foi contra a abertura do impeachment e depois votou pela cassação.

Tiago Eli e Fernando Medeiros, que romperam no PP.

Paulinho da Farmácia, que abriu mão da vice e até se licenciou para a suplente assumir e ampliar a coligação atraindo o PDT.

Pricila Barra, que fez o mesmo com seu suplente, atraindo o Podemos que tem também o vereador Uilson Droppa, que votou contra o impeachment.

Otoniel Gomes, do MDB, que entregou a liderança do governo Cristian após três anos.

– A Prefeitura contraiu empréstimo de R$ 80 milhões e nunca me responderam onde foi o dinheiro – disse, acrescentando que “se teve golpe foi contra o bolso do povo de Cachoeirinha”.

A festa foi construída como síntese: não é sobre ideologia. É sobre maioria. Ao menos, reputo, pareceram querer comunicar.

Jussara, popular, de partido da base de Lula.

Mano, conservador, bolsonarista-raiz.

No palco, não havia ferradura ideológica. Havia pragmatismo.

– Estive sob ameaça de cassação. Era uma injustiça. Jussara me garantiu apoio. Nunca esquecerei.

Recebeu um novo sobrenome.

– Não é mais o Mano do Parque. É o Mano da Cidade – disse Jussara.

Convenção do Avante lotou o CTG Roda de Carreta, na noite deste sábado

A destruição da chapa adversária

A adesão do MDB implode o plano traçado por Cristian e pelo ex-vice Delegado João Paulo Martins (PP).

Eles pretendiam lançar Claudine Silveira (PP), esposa de João Paulo, e Cleo do Onze (MDB), vereador fiel ao ex-prefeito.

Cristian queria testar seu capital político como ‘Grande Eleitor’.

Mas sem o MDB, o teste perde lastro. O que era confronto direto virou terreno movediço.

É Cristian, sem partido, ou com o partido-partido, colocando seu legado a teste.

Jussara e Mano trocaram juras de lealdade nos discursos nas convenções do Avante (foto) e PL

Discurso de missão

Jussara falou com emoção. Lembrou dos filhos. Do marido falecido, Ildo, ex-vereador. Dos 38 anos de vida pública.

– Acabou a brincadeira. Meu sobrenome é trabalho.

Repetiu que, em 40 dias de governo, pegou Natal e Ano Novo com mato alto e lixo acumulado.

– Meu primeiro decreto foi sobre o lixo.

Falou de saúde.

– Não vai ter mais idosos nas filas de posto. Não aceito.

Prometeu o fim do teleagendamento e ganhou aplausos efusivos.

– Vou acabar com isso. Quero fichas e médicos nos postos.

Agradeceu ao deputado estadual Dimas Costa (PSD) — ‘embaixador’ do governador Eduardo Leite em Gravataí e que se propõe a exercer o mesmo papel por Cachoeirinha — pela intermediação na liberação das obras do Arroio Passinhos.

Dimas, por sua vez, lembrou que Jussara pode ser a primeira mulher a comandar a cidade e pediu aplausos — não silêncio — pela morte de uma ex-vereadora vítima do 16º feminicídio no RS apenas em 2026.

– Parem de matar as mulheres. O poder é o lugar delas.

Ao fim, se no anúncio de Mano vice, às 23h do dia 11, houve pressa calculada, agora houve demonstração de força. A unidade proposta se traduziu em festa. Em números. Em ampla coligação.

Jussara entra na campanha não apenas como prefeita interina, mas como candidata que reuniu quase toda a Câmara. E que arrancou o MDB das mãos do seu principal adversário.

Se isso basta para vencer, as urnas dirão.

Mas, na noite de sábado, a política teve ritmo de samba — ao som do bloco da maioria.


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