O PT de Cachoeirinha decidiu. E decidiu por unanimidade.
Em convenção na noite deste domingo, o partido confirmou a chapa Tairone Keppler (PT) para prefeito e Cláudia Azevedo (PV), a Cláudia Protetora, para vice, na eleição suplementar de 12 de abril. O PCdoB também integra a federação partidária.
Unanimidade também para outra decisão: não haverá coligação com o PSB do ex-prefeito José Stédile. Menos ainda com o grupo do prefeito cassado Cristian Wasem (MDB).
Chapa pura. Sem David Almansa, candidato nas duas últimas eleições, que decidiu não concorrer mesmo após apelos dos companheiros. Sem os dois vereadores. Sem unidade da oposição.
PT-raiz.
Os ‘guris’ não foram
Como revelei na reportagem “PT rompe com todos e — sem David Almansa — vai de chapa pura”, o partido flertou com a hipótese de lançar seus dois vereadores, Gustavo Almansa e Leo da Costa.
Seria a imagem da reconciliação após o ‘deu PT’, de ‘perda total’ da unidade partidária, no impeachment.
Não prosperou.
Nos bastidores, onde a política não usa eufemismos, o sentimento é direto: “os guris arregaram”.
A leitura é de que a eleição é um sacrifício.
De um lado, Jussara Caçapava (Avante), prefeita interina, com 9 partidos e 12 dos 17 vereadores. De outro, Cristian e Delegado João Paulo Martins, apoiando Claudine Silveira (PP), vereadora e esposa do vice-prefeito cassado. E ainda Stédile, em chapa própria pelo PSB.
O PT avaliou que seus vereadores precisam se dedicar aos mandatos. E escolheu outro caminho.
Quem é Tairone
Tairone não é novato na militância. É novato no teste majoritário.
Falou ao Seguinte: com narrativa biográfica pronta:
– Moro há 33 anos em Cachoeirinha. Cheguei com 10 anos na Vila Anair, e aos 12 comecei a acompanhar os movimentos sociais e observar que só a política poderia transformar nossas vidas. Chovia e o bairro alagava. Aos 14 comecei a militar no PT. Hoje ainda é uma região carente, mas era bem pior.
A identidade é simbólica: PT de base.
– Sou igrejeiro. Militei nos movimentos progressistas da Igreja Católica, nas pastorais da juventude e operária, nas CEBs. Por 20 anos em rádio comunitária, fiz 10 anos de TV. Hoje sou o que a sociedade moderna chama de empresário, do ramo de eventos, tenho quatro salões entre Gravataí e Cachoeirinha e gero mais de 100 empregos diretos e indiretos. Meus funcionários já trabalham na escala 5 por 2, têm plano de saúde, salários acima da média. Aplico na prática aquilo que defendo na política. Nunca nego minha origem, não esqueço meu lugar na luta de classes.
É o discurso do militante que virou empreendedor sem abandonar a cartilha.
Tairone resgata o primeiro governo petista na cidade:
– Em 33 anos, em apenas dois ocupei cargos. Foi no primeiro governo do PT em Cachoeirinha, quando ajudei a construir o Orçamento Participativo. No nosso governo levamos saneamento para Zona Norte, acabando com os alagamentos na Manoel Gonçalves Jr., asfaltamos mais de 250 ruas, levamos iluminação pública para toda cidade, construímos 5 unidades de saúde, o 24 Horas, duas escolas, o Parcão.
É o PT que reivindica obra. Gestão. Participação popular.
Sem pedir licença — nem a Stédile, prefeito à época pelo partido.
Contra todos
O discurso político é frontal:
– Hoje Cachoeirinha vive uma tragédia política e administrativa. As outras candidaturas têm o mesmo projeto. O PT de Cachoeirinha decidiu por unanimidade que nenhuma delas nos representa.
A crítica atinge tanto Jussara quanto o grupo de Cristian. E também Stédile.
O isolamento é consciente.
– Temos uma prioridade que é reeleger o presidente Lula e evitar que o Brasil seja novamente governado pela extrema direita. Precisamos eleger governador, deputados, senadores. Representamos um projeto.
David Almansa permanece fora da disputa municipal, mas dentro da estratégia nacional.
– O PT entendeu que seus dois vereadores têm que se dedicar aos mandatos, David deve se dedicar à função que exerce no governo federal, e nossa candidatura vai botar o pé no barro contra essa máquina poderosa da Prefeitura. É hora de coragem. Sou um militante. Nunca fugi à luta. É hora da coragem. Do sacrifício pessoal e profissional.
Se os ‘guris’ não foram ao sacrifício, Tairone foi.
O sacrifício e o sacrificado
A eleição suplementar que nasceu do impeachment transformou Cachoeirinha em laboratório político.
Jussara governa com maioria esmagadora. Cristian tenta provar que ainda é ‘Grande Eleitor’. Stédile aposta na estabilidade da ‘cabeça branca’. O PT escolhe coerência ideológica.
Quatro candidaturas. Quatro narrativas. Nenhuma unidade.
O PT fez sua escolha. Sem coligação. Sem cálculo de conforto. Com aposta na militância-raiz.
Ao fim, reputo, porém, que se as estrelas não foram para o sacrifício, o partido, ao menos potencialmente, arrisca restar sacrificado.
Aguardemos o confirma das urnas.
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